O doce mel da memória, após cinco anos, tornara-se veneno.
— Papai?
A voz de Olivia tirou Gilberto de seus pensamentos. Sua expressão escureceu instantaneamente. Olhando para aquela versão em miniatura do rosto, seu olhar tornou-se sombrio e indecifrável.
— O que foi, papai? Por que você não está feliz? Eu te irritei?
A menina perguntou, cautelosa.
Gilberto virou a cabeça para a janela e disse em voz baixa:
— Não.
— Então sorria um pouco. A mamãe diz que quando a gente não está feliz, tem que sorrir mais. Assim, as coisas tristes não voltam a nos procurar!
Gilberto virou a cabeça para olhá-la e deu uma risadinha.
— Ela te enganou.
— A minha mamãe não me enganaria!
— Ha! A sua mãe é a pessoa mais mentirosa que existe.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que ela é ótima em mentir e enganar as pessoas.
— Não é verdade! A minha mamãe não mente!
Mike, enquanto dirigia, ouvia a discussão de pai e filha no banco de trás, como se fossem crianças da escola primária. Ele franziu os lábios, sem palavras.
— Com licença, Diretor Paiva, para onde vamos agora?
Gilberto estava prestes a falar quando seu celular tocou. Ele olhou e atendeu.
— Você não está na empresa?
— Não.
— Eu estava pensando em ir com você para a casa da família Cruz. Onde você foi tão cedo?
Gilberto olhou para Olivia. Naquele momento, ela o encarava com seus grandes e curiosos olhos amendoados.
— Fui buscar minha filha na escola.
A pessoa do outro lado da linha ficou em silêncio por uns dez segundos antes de perguntar, com incerteza:
— O que você disse que foi fazer?
Gilberto franziu a testa, irritado.
— Você está surdo?
— Não é isso, é que... e a Ana? Por que foi você quem buscou a menina hoje?
— Por que você não pergunta para ela?
— Então você vai trazer a menina para a festa de aniversário da Pérola?
Gilberto olhou para os olhos cheios de expectativa de Olivia.
— Pérola, feliz aniversário!
Pérola sorriu ao receber o presente.
— Obrigada, Gregório. O Gilberto não veio com você? Você não disse que viriam juntos?
Gregório Duarte coçou a cabeça.
— Ele não estava na empresa. Liguei para ele agora há pouco. Ele disse que foi buscar a filha na escola. Deve demorar um pouco.
O sorriso no rosto de Pérola congelou por um instante, como se não acreditasse no que estava ouvindo.
Até mesmo Norberto e Francisco olharam, surpresos.
— O que você disse?
Gregório deu de ombros.
— Surpreendente, não é? Eu também fiquei surpreso, mas foi o que ele disse.
Pérola franziu a testa, quase imperceptivelmente. Ela nunca gostou da filha de Ana e Gilberto.
Ao longo dos anos, elas se viram pouquíssimas vezes, quase não tinham contato.
Gilberto também parecia agir como se não tivesse uma filha.
Com o tempo, as pessoas do círculo social deles pareciam ter chegado a um acordo tácito de ignorar esse fato.
O fato de que Gilberto era casado e tinha uma filha.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Arrependimento do Ex-Marido