Ponto de Vista de Lila
Consegui passar pela aula sem mais problemas relacionados aos meus poderes, mas não pude deixar de pensar no paradeiro de Enzo o tempo todo. Até Becca percebeu que eu estava distraída, pois ela conseguiu me atacar algumas vezes.
— Você está bem? — Ela perguntou, me olhando atentamente — Está preocupada com a Sarah?
— Um pouco.— Menti — Só não quero que ela pense que sou perigosa.
Becca ia dizer algo, mas fomos interrompidas pela Professora Connie atrás de nós.
— Você deve ser a Lila. Ouvi muito sobre você. Estou ansiosa para conhecê-la um pouco melhor. — Disse com um sorriso afetuoso.
Franzi a testa e a encarei.
— Pensei que você estivesse aqui apenas por alguns dias!— Disse, tentando não parecer muito rude, mas não consegui me conter.
— Não tenho certeza de quanto tempo ficarei aqui.— Ela admitiu — Ele não especificou. Mas me disseram que você é uma das melhores alunas de combate. Estou ansiosa para ver o que você realmente pode fazer.
— Agradeço.— Respondi.
Pausei por um momento enquanto encarava seu rosto.
— Você sabe onde está o Professor Enzo? É estranho ele ter saído sem dizer uma palavra aos seus alunos.
Ela franziu a testa e balançou a cabeça.
— Problemas familiares, pelo que entendi. — Explicou com um encolher de ombros. — Soou urgente quando ele me ligou, porém. Ele pediu se eu poderia assumir a aula por enquanto, mas não especificou muito mais.
Um nó se formou em meu estômago e de repente não me senti bem.
Ele ligou para ela? Quem era essa mulher para ele?
— Obrigada. — Disse a ela, forçando um sorriso nos lábios enquanto me afastava — Tenho que ir.
Saí sem dizer mais nada.
Que tipo de problemas familiares manteriam Enzo longe do trabalho?
Vaguei pelos corredores, me sentindo quase como um fantasma. Ignorei a maioria das pessoas que passavam por mim, ouvi algumas me cumprimentando, mas soavam tão distantes e eu me sentia tão vazia.
Essa sensação era desconhecida e estranha para mim. Será que era isso que ter um companheiro era?
Sentir esse sentido avassalador de pavor sempre que não estava perto dele?
Por que ele não poderia apenas me rejeitar de uma vez?
— Você realmente quer que ele te rejeite? — Val ronronou dentro de mim.
— Um pouco. — Respondi honestamente — Enzo nunca poderia me amar... é tolo pensar o contrário.
— Por que você pensa tão mal dele?
— Não penso mal dele. Na verdade, o respeito muito. — Respondi — Mas a verdade é que ele não quer uma companheira. Certamente não iria querer uma Volana como companheira. Você viu a expressão dele quando descobriu a verdade...
— Você não está nem um pouco curiosa sobre ele?
— Claro que estou! — Respondi — Mas estamos atrás de coisas diferentes na vida. Somos muito diferentes e isso ficou claro. Além disso, ele é o meu professor. Que tipo de relacionamento realmente poderíamos ter?
— O conselho não entenderia que ele é seu companheiro?
Ia responder, mas uma nova voz cortou os meus pensamentos.
— Oh, olá, Lila!
Virei para ver a Srta. Grace parada na porta de sua sala de aula. Minha professora de arte e minha orientadora designada.
— Olá, Srta. Grace! — Disse com um sorriso gentil.
— Não se esqueça de que o grande projeto deste semestre deve ser entregue em alguns dias. Uma pintura de sua inspiração ou modelo. Mal posso esperar para ver o trabalho que você fez.
Tenho trabalhado nas últimas semanas em um retrato de família. Está guardado em meu quarto sob um lençol de seda e pronto para ser visto. Mal podia esperar para que ela o visse também, conta metade da minha nota para este semestre.
— Você vai adorar! — Digo a ela.
Pauso antes de me afastar.
— Srta. Grace, como minha orientadora, você poderia me conceder permissão para tirar os próximos dias de folga das minhas lições? — Perguntei levantando os olhos para encontrar os dela.
— Estou bem. — Eu assegurei beijando-a gentilmente na testa — Só queria que você me deixasse protegê-la e vir para casa comigo para a minha matilha. Eu posso te manter segura.
— Eu não posso simplesmente abandonar os outros, Enzo! — Ela suspirou — Eles precisam de mim e eu preciso deles. Eles também são da minha família.
Doeu ouvir essas palavras da minha mãe, mas eu entendia. Enquanto os homens do meu pai estivessem por aí, caçando Volanas a minha mãe e os outros não estariam seguros.
Anos atrás, minha mãe, uma loba Volana, tomou medicamentos para se livrar de suas habilidades. O mesmo aconteceu com aqueles que vivem com ela no território dos renegados. Ela temia tanto o meu pai que estava disposta a tirar uma parte de si mesma para se esconder dele.
Esses homens são perigosos quando se trata de Volanas e enquanto estiverem por perto, as lobas Volanas não estão seguras.
Lila não está segura.
Eu não poderia estar com Lila sabendo o perigo que eu traria para a sua vida. Esses homens estão constantemente observando cada movimento meu.
Se soubessem que Lila era uma Volana, seria ela nesta cama do hospital a seguir.
Ou pior.
Agora que Lila tinha a sua loba, o seu cheiro de Volana se tornaria mais evidente. Eu não tinha tempo a perder. Ela precisava permanecer o mais invisível possível.
Tê-la como companheira me faria ficar distraído para cumprir com as minhas obrigações e eu a colocaria num mundo de perigo.
Isso era algo que eu não estava disposto a arriscar.
Levantei-me da cama de minha mãe. Minha decisão estava oficialmente tomada.
Ela estreitou os olhos para mim, confusa com a minha expressão, tenho a certeza
— O que foi? — Ela perguntou, franzindo as sobrancelhas.
— Voltarei amanhã. — Eu disse a ela — Vou voltar para casa esta noite.
Desejei-lhe boa noite antes de sair.
Eu precisava voltar para a academia e encontrar Lila.
Eu precisava rejeitá-la oficialmente.

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