Lila Montgomery
O sol já nascia preguiçoso no horizonte quando voltamos para a fazenda. O céu era uma pintura viva, manchado por tons de laranja, rosa e dourado, e o ar trazia aquele cheiro bom de terra molhada, feno e café fresco vindo da cozinha. Diablo trotava tranquilo, satisfeito, balançando a crina ao vento, e Taylor vinha ao meu lado com o sorriso mais descaradamente feliz do mundo, aquele tipo de sorriso que denunciava um segredo, mas que, no caso dele, não era segredo algum.
O homem estava leve, confiante, e, por algum motivo, ainda mais irresistível.
O silêncio entre nós não era desconfortável. Era um silêncio cúmplice, cheio de lembranças recentes e sensações que ainda pareciam arder na pele. Cada vez que nossos olhares se cruzavam, eu sentia o calor subir pelo corpo, lembrava do riacho, da grama úmida sob nós, do som do riso dele misturado ao barulho da água, e do modo como ele me fazia esquecer o mundo.
Eu tentava parecer composta, mas as pernas ainda tremiam discretamente, denunciando o que havíamos feito algumas horas antes. E, a cada pequeno movimento do cavalo, o corpo reagia com um arrepio que subia pela espinha e terminava num suspiro contido.
Taylor percebeu, é claro. Ele sempre percebia.
— Tá tudo bem aí, princesa? — perguntou, num tom rouco e divertido, o tipo de voz que fazia o coração disparar.
— Tudo ótimo — respondi rápido demais, ajeitando o vestido e tentando disfarçar as marcas que ele mesmo tinha deixado na minha pele.
Ele arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência, mas o sorriso no canto da boca denunciava o humor provocante.
— Hum... — fez uma pausa dramática. — Porque, se não estiver, posso parar a cavalgada pra te ajudar a... alongar.
Revirei os olhos, tentando segurar o riso.
— Você não presta.
— Não. — ele concordou com aquele sorrisinho de canto. — Mas você também não é santa, Montgomery.
Olhei pra ele por um instante, fingindo indignação, mas acabei rindo. O pior, ou melhor, é que ele tinha razão. E eu amava o fato de ele saber disso.
Conforme nos aproximávamos da porteira, o som familiar da fazenda acordando preencheu o ar: o mugido das vacas, o latido animado dos cães, o barulho do vento batendo nas árvores. E, acima de tudo, vozes. As vozes alegres que vinham da varanda principal.
Catarina estava lá, de braços cruzados, uma xícara de café fumegante nas mãos e aquele olhar de quem estava apenas esperando o espetáculo começar. Ao lado dela, Maurício tentava manter a compostura, mas o sorriso travado nos lábios denunciava que ele já sabia o suficiente para se divertir às minhas custas.
Assim que nos viram, Catarina ergueu a voz, teatral:
— Ih, olha só quem resolveu aparecer! O casal natureza selvagem voltou!
Os cachorros começaram a latir, como se confirmassem o anúncio. Taylor gargalhou antes mesmo que eu pudesse reagir.
— Não começa, Catarina! — protestei, sentindo o rosto pegar fogo.
Ela tomou um gole do café e inclinou a cabeça, fingindo inocência.
— E aí, tá melhor, cunhadinha? — perguntou, com o olhar mais descaradamente malicioso do planeta.
Minha alma quis evaporar. Taylor, claro, resolveu piorar tudo. Desceu do cavalo num movimento fácil e veio até mim com o sorriso de quem já estava pronto para provocar. Passou o braço pela minha cintura me ajudando a descer do cavalo e, alto o bastante pra todos ouvirem, respondeu:
— Estamos muuuuito melhor!
Maurício engasgou com o café e Catarina quase deixou a xícara cair de tanto rir.
— Imagino! — ela disse, enxugando uma lágrima de riso. — O riacho lá atrás deve até ter mudado de curso depois de tanto... movimento!
— Catarina! — exclamei, cobrindo o rosto com as mãos. — Você não tem freio!
— Tenho sim! — retrucou ela, rindo. — Mas vocês dois esqueceram o de vocês! O gado não dormiu, o galinheiro tá comentando, e até os patos estão aplaudindo, viu?
Taylor ria tanto que mal conseguia falar. Ele me abraçou por trás, o que só piorou a minha vergonha, e murmurou com a voz divertida:
— Acho que a gente vai precisar de uma placa na porteira. Algo tipo: “Área de preservação amorosa. Entrada por conta e risco.”
Maurício balançou a cabeça, tentando conter o riso.
— Olha, Lila, se eu fosse você, não olhava pra Catarina por uns três dias. Ela vai te lembrar disso toda vez que te ver.
— Já tô acostumada — murmurei, rindo nervosa. — Ela vive pra isso.
Catarina ergueu a xícara, triunfante.
— Alguém tem que manter o humor nessa fazenda!
— Humor? — resmunguei. — Isso é bullying rural.
Taylor aproximou o rosto do meu pescoço e sussurrou:
— Admite, princesa... você adora quando te provocam.
— Eu adoro quando você cala a boca. — rebati, tentando parecer séria, mas o sorriso me entregou.
Ele riu, baixinho.
— Posso resolver isso também...
Catarina, que obviamente ouviu, franziu o cenho, fingindo escândalo.
— Ei! Vocês dois! Sem mais cenas no meio do curral! O sol mal nasceu, e eu ainda nem terminei o café!
Taylor olhou pra mim, teatral.
— Tá vendo, amor? A gente tenta ser discreto, mas a plateia é exigente.
Maurício, rindo, completou:
— E você é transparente! — retrucou, piscando pra mim. — Olha esse sorriso, olha esse brilho! Nem precisa de teste, minha filha, isso aí já é a imagem de uma mulher bem servida.
— Catarina! — gritou Maurício, agora entre o riso e a resignação. — Vamos antes que você apanhe!
— Tá, tá… — respondeu ela, limpando uma lágrima de tanto rir. — Mas vocês dois, se cuidem! E, pelo amor de Deus, não vão “cuidar” demais na varanda!
Ela e Maurício foram embora rindo, e o som das gargalhadas deles se perdeu no pátio.
Fiquei quieta por um instante, ainda encostada em Taylor. O calor do sol entrava pela janela, dourando tudo. Ele continuava com a mão sobre minha barriga, fazendo pequenos círculos distraídos, com o olhar leve e cheio de carinho.
— Eu falei alguma mentira? — sussurrou, fingindo inocência.
— Falou sim — respondi, sorrindo. — Eu não tô gulosa.
— Não? — perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Então por que tá me olhando desse jeito, hein, princesa?
— Porque você fala demais.
Ele deu aquele sorriso torto que me desmontava inteira e me puxou de leve pela cintura.
— E você, fala de menos. Acho que vou ter que resolver isso…
— Aqui? — perguntei, olhando em volta, fingindo horror. — Taylor, a Catarina e o Maurício…
— Então é o momento perfeito — respondeu, rindo. — Vem princesa, deixa eu cuidar de você como você merece…
Antes que eu respondesse, ele me beijou, aquele beijo doce, quente, cheio de promessa. E, quando nos separamos, ele segurou minha mão e sussurrou, com aquele tom sereno que misturava brincadeira e amor verdadeiro:
— Vamos deixar o forninho quietinho e o resto… eu cuido.
O sorriso que ele me lançou dizia tudo o que as palavras não podiam. Um sorriso perigoso, carregado de segundas intenções. Senti o arrepio percorrer minha pele antes mesmo que ele me puxasse pela cintura. O corpo dele encostou no meu, e o calor que se formou entre nós foi a resposta mais clara possível.
— Taylor… — murmurei, tentando soar repreensiva, mas a voz saiu fraca, traída.
Ele inclinou o rosto, roçando os lábios no meu pescoço, e a voz rouca veio num sussurro que me desmontou inteira:
— Shh… não precisa fingir que não quer, princesa. Eu sinto daqui o quanto você me chama.
E, sem esperar outra palavra, ele me pegou no colo, rindo baixinho contra o meu ouvido.
Enquanto subíamos as escadas, o som da risada dele misturava-se ao bater apressado dos nossos corações, um ritmo que prometia o que viria a seguir.
A porta do quarto se fechou com um estalo suave, abafando o mundo lá fora. E o silêncio que se seguiu foi o tipo de silêncio que só existe antes do pecado, quente, cúmplice e inevitável.

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