O sol poente tingia o horizonte em tons de ouro e carmim, espalhando uma luz quente que parecia incendiar o céu e refletir nas janelas empoeiradas da velha picape Ford. O motor roncava firme, vencendo o caminho de terra que serpenteava pela imensidão rural. O cheiro de feno, suor e gasolina se misturava com o aroma distante de terra molhada, um perfume que só o campo sabia exalar.
Taylor, de chapéu ligeiramente inclinado para trás, mantinha as mãos firmes no volante. As mangas arregaçadas deixavam à mostra os antebraços fortes e bronzeados, e o olhar dele, fixo na estrada, denunciava concentração. Mas, no fundo, sua mente vagava longe, lá no riacho onde, na noite anterior, ele e Lila tinham feito amor sob as estrelas. Um sorriso quase imperceptível se formou nos lábios dele. Aquela mulher estava o deixando maluco, e não só de desejo. Desde que engravidou, os hormônios pareciam tê-la transformado numa força da natureza. E ele, pobre cowboy, não fazia questão alguma de resistir.
No banco ao lado, Maurício observava o horizonte pela janela, os pensamentos igualmente perdidos, mas em outra direção. Ele não conseguia deixar de imaginar como seria a vida depois do casamento com Catarina. Dormir e acordar ao lado dela todos os dias, ouvir aquele sotaque cantado logo cedo, sentir o perfume dela no travesseiro. Sorriu sozinho. A fazenda que Taylor havia dado de presente, ao lado da sua, seria o início de uma nova vida. Um lar, um futuro. Catarina disse que queria ficar perto do irmão, e ele não soube negar. Na verdade, não sabia negar nada àquela mulher.
— Que silêncio é esse, hein? — interrompeu Tomás do banco de trás, inclinando-se entre os dois com o habitual ar travesso. — Parece até velório. Vocês tão indo casar ou pra forca?
Taylor revirou os olhos, sem tirar a atenção da estrada.
— Se você continuar falando, eu juro que te deixo no meio da estrada pra voltar a pé, Tomás.
— Ihhh… olha o mau humor do cowboy! — provocou o cunhado, rindo alto. — Aposto que minha irmã já tá te domando direitinho, hein? Fala a verdade, Taylor, ela já colocou cabresto em você?
Maurício engasgou de tanto rir.
— Essa eu quero ouvir — disse, limpando uma lágrima do canto do olho. — Domado, Taylor? Você, o homem que não deixa ninguém mandar nele?
Taylor bufou, apertando o volante.
— Domado, não. Só… sou um homem apaixonado, é diferente.
— Ah, fala sério! — retrucou Tomás, cutucando o ombro do cunhado. — Aposto que ela manda e você obedece sorrindo.
Taylor lançou-lhe um olhar de canto, com o maxilar tenso, mas o sorriso traía a raiva fingida.
— Cuidado, garoto. Ainda posso conversar com a Clara e convencer ela a aceitar o pedido do filho do senhor Arnaldo.
— Ah, que é isso cunhado, você não faria isso! — riu Tomás, escorando-se no encosto do banco. — Vamos mudar de assunto, tenho uma notícia boa para vocês dois.
Maurício suspirou, já prevendo confusão.
— Lá vem.
— Vocês dois vão casar, certo? Então… nada mais justo do que uma despedida de solteiro dupla! — anunciou Tomás, abrindo um sorriso de orelha a orelha e batendo palmas, animado como criança em festa de aniversário. — Já tô planejando tudo! Música, umas boas garrafas e… bom, umas surpresas também.
Taylor freou bruscamente a picape, levantando poeira.
— O quê? — ele virou o rosto, incrédulo. — Despedida de solteiro? Você tá maluco, Tomás?
Maurício já balançava a cabeça, assustado.
— Nem vem com essa. Catarina me mata. Ela não gosta nem quando a mulher da padaria me chama de “meu querido”, imagina se souber de festa de solteiro!
— Vocês dois são dois covardes — reclamou Tomás, indignado. — É tradição! Vocês precisam comemorar o fim da vida de solteiro!
Taylor bufou.
— Tradição? A Lila tá grávida, seu idiota. A última coisa que eu quero é ela me olhando com aquele olhar de “eu sei o que você fez”.
Maurício completou:
Taylor se calou.
— Cara, como eu nunca percebi que você já era caidinho pela Lila desde aquela época?
Maurício olhou para o cunhado pelo retrovisor e comentou com um sorriso de canto:
— Esse aí ainda vai fazer a gente aparecer nas notícias da cidade.
Taylor suspirou fundo, ajeitando o chapéu.
— Tomás, se eu chegar em casa e Lila descobrir que você inventou uma despedida, você vai precisar cavar sua própria cova. E eu vou ajudar.
— Relaxa, cowboy — respondeu ele, com um sorriso confiante. — Eu sei me virar. E prometo: nada que sua noivinha possa reclamar.
Maurício riu.
— Ela vai reclamar de você existir, isso sim.
O som das risadas preencheu a cabine. O sol desaparecia atrás das colinas, tingindo o campo com aquele tom avermelhado que só o fim de tarde tinha.
A picape seguia pela estrada agora já tomada pelas luzes da cidade. O ar cheirava a asfalto quente e promessas de confusão. Tomás sorria satisfeito, já imaginando o caos que viria. Taylor e Maurício apenas se entreolharam com expressão cúmplice, metade diversão, metade resignação.
— Eu não acredito que a gente vai cair nessa — murmurou Taylor, suspirando.
— Pois acredite, cowboy — respondeu Maurício, dando um leve tapa no ombro do amigo. — Porque se o Tomás disse que vai ser a melhor de todos os tempos… a gente tá perdido.

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