Samuel franziu a testa na mesma hora.
Do momento em que Ivone tinha voltado para o condomínio até o instante em que Bendinho percebeu que ela tinha sumido, só uma pessoa tinha aparecido nas gravações: Fabiano.
— Com certeza o Fabiano deu um jeito de levar a Srta. Ivone sem ser visto. — Concluiu Bendinho, já se virando para sair com os homens, decidido a ir até a Moraes Capital exigir que Fabiano devolvesse Ivone.
— Espera. Deixa-me fazer uma ligação primeiro. — Disse Samuel.
Ele pegou o próprio celular, localizou o número de Fabiano e chamou. O toque soou até cair sozinho. Ninguém atendeu.
Samuel estendeu a mão para Bendinho:
— O celular da Ivi.
— Está comigo. Para garantir, assim que eu desliguei a chamada que fiz para o senhor, eu deixei o celular da Srta. Ivone em modo de tela sempre ligada, para a tela não bloquear.
Samuel assentiu com um leve movimento de cabeça. Em vez de procurar o número de Fabiano na agenda de Ivone, ele tocou rapidamente no recurso de chamada de emergência.
Ele sabia que Ivone tinha cadastrado dois números como contatos de emergência.
Um era o de Fabiano.
O outro era o de Davi.
Na sede da Moraes Capital, a reunião com a alta diretoria estava em andamento na sala maior do andar executivo.
Fabiano, sentado na cabeceira, mantinha o rosto fechado. Ele já não era de sorrisos quando estava de bom humor, naquele dia, porém, ele estava gelado. A tensão que vinha dele parecia encher o ambiente, pesada a ponto de sufocar.
Os executivos, alinhados dos dois lados da mesa, estavam em puro estado de alerta. Cada um, ao apresentar o próprio relatório, media as palavras com extremo cuidado, morrendo de medo de dizer algo que desagradasse a Fabiano e acabasse sumariamente dispensado.
Em cima da mesa, a tela do celular de Fabiano acendeu. Uma chamada apareceu:
[Samuel].
Samuel…
Na cabeça de Fabiano, surgiu, como um estalo, a imagem de Ivone no restaurante, inclinando o corpo para servir comida no prato de Samuel. Em um segundo, os lábios dele se reduziram a uma linha rígida. Ele desviou os olhos do aparelho.
Ele ergueu o olhar para o diretor de marketing, que apresentava os números tremendo por dentro, e falou sem demonstrar qualquer emoção:
— Continue.
A tela se apagou. No instante seguinte, porém, a tela acendeu de novo.
Da primeira vez, o diretor de marketing tinha educadamente interrompido a fala ao notar que Fabiano olhava para o celular. O gelo que ele viu nos olhos do chefe quase fez o coração dele parar, e ele percebeu que aquela breve pausa tinha sido uma péssima ideia. Então, da segunda vez, ele nem cogitou parar. Ele continuou falando sem ousar respirar mais fundo.
Quando a apresentação dele se aproximava do fim, o barulho seco do pé de uma cadeira arrastando no piso ecoou do lado oposto da mesa, na cabeceira.

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