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Construí seu império e vi tudo queimar quando ele me traiu romance Capítulo 3

Se ele tivesse apenas virado a cabeça, por um segundo que fosse, teria visto sua esposa, sentada sozinha na beira da calçada, encharcada pela chuva, tremendo de frio, com os olhos completamente vazios.

Mas ele não viu.

Estava perdido demais na excitação. Aquela garota em seus braços o incendiava com algo novo. Naquele instante, ele esqueceu que tinha uma casa, uma esposa, um passado.

Anneliese observou o carro desaparecer nas luzes borradas da cidade. Então se levantou.

Enfiou a mão na bolsa, tirou o laudo de fertilidade e começou a rasgá-lo em pedaços. Seus dedos se moviam devagar, firmes. Quando terminou, foi até uma lixeira próxima e jogou os fragmentos dentro.

Depois virou as costas e caminhou para o outro lado.

A noite já estava profunda, e a chuva fina ainda caía.

Mesmo o movimentado distrito comercial estava silencioso.

Na esquina, uma senhora idosa se agachava na calçada. Os cabelos brancos grudavam na pele sob a luz amarelada do poste, e a chuva umedecia seu casaco fino. Perto dos pés, alguns ramalhetes de flores descansavam.

A vida era dura. O amor não significava nada.

Anneliese tirou a aliança do dedo. Aproximou-se da velha senhora e, com delicadeza, segurou sua mão. Colocou a aliança em sua palma e fechou seus dedos sobre ela.

“Está chovendo. A senhora devia ir pra casa.”

A idosa não respondeu.

Anneliese não esperou. Apenas se virou e foi embora.

Dois minutos depois, um Phantom preto parou na calçada. A porta do motorista se abriu e um homem desceu.

Os sapatos de couro batiam no chão, polidos, elegantes, refletindo a luz enquanto ele se movia. A calça do terno subia ligeiramente a cada passo, revelando meias escuras e tornozelos firmes.

Era alto. Sua presença dominava a calçada enquanto ele abria um guarda-chuva preto e seguia direto até a senhora idosa.

Ajudou-a a se levantar. A voz dela vacilou.

“Não fique bravo, Jonathan. Eu não esperava a chuva. Ainda sou forte. Um pouco d’água não me faz mal.”

Ela explicou que tinha saído de um concerto. No caminho de volta, o motorista acabou atropelando acidentalmente uma vendedora de flores. Ele a levou ao hospital, então ela esperou ali, já que a empresa do neto, viciado em trabalho, ficava por perto.

Mas, ao notar o olhar frio dele, suas palavras foram diminuindo.

De repente, lembrou-se da aliança. Apressada, empurrou-a para as mãos dele.

“Uma moça me deu isso por engano. Ela foi embora antes que eu dissesse qualquer coisa. Vai, corra atrás dela! Foi naquela direção!”

Jonathan Fullbuster, o neto da senhora idosa, olhou para onde ela apontava e avistou uma silhueta distante. Uma figura delgada avançava em meio à névoa e às luzes, desaparecendo a cada passo.

“Entre no carro.”

Ajudou a avó a se acomodar no banco de trás, aumentou o aquecedor e ajeitou um cobertor sobre suas pernas. Quando ela ficou confortável, ele fechou a porta e saiu em busca da moça.

Seu passo era firme, longo, decidido. A figura à frente foi ficando mais nítida.

Ela caminhava em ritmo calmo, direto sob a chuva. O casaco azul-acinzentado grudava em suas costas, encharcado. A cintura parecia frágil, delicada. Mantinha a postura ereta, com uma serenidade distante, como se nada neste mundo barulhento pudesse tocá-la.

Virou a esquina e sumiu na noite.

Quando Jonathan alcançou o local, ela já não estava mais lá.

A rua se estendia à frente, longa e vazia. As poças refletiam as luzes dos postes, projetando formas borradas no chão. Parecia que ela nunca esteve ali.

….

De volta ao carro, a idosa se inclinou para ele.

“E então?”

“Não consegui alcançá-la.”

Ela franziu a testa.

“Você dirige aviões, comanda uma companhia aérea, e não conseguiu alcançar uma garota?”

“Vó, sua lógica está meio confusa.”

“Não venha bancar o esperto pra cima de mim. Estou decepcionada. Aquela moça era linda e bondosa! Por que não chegou cinco minutos antes? Poderia tê-la conhecido! Vocês seriam perfeitos juntos!”

“Ela é casada”, respondeu ele, mostrando a aliança. Parecia uma aliança de casamento.

A senhora não quis saber. Empurrou o anel de volta para ele.

“E daí? Ela tirou, não tirou? Isso significa alguma coisa. Vá atrás dela e devolva.”

Jonathan girou o anel entre os dedos.

O diamante rosado captava a luz fraca e cintilava como um segredo.

É estranho… Segurar a aliança de uma desconhecida.

A avó continuava o encarando.

Ele suspirou e largou o anel no console central. Um leve sorriso curvou seus lábios.

“Agradeço sua fé em mim.”

“Não me venha com graça. Esse anel vale pelo menos um milhão. Você vai achar essa moça e devolver, entendeu?”

“Entendido, Vossa Majestade...”

Ele respondeu sem entusiasmo, mas o olhar ainda voltou para o anel.

Que dor de cabeça...

Anneliese só olhou o celular quando já estava dentro do táxi. Foi então que viu a mensagem de Zacharias, enviada duas horas antes.

“Querida, surgiu um imprevisto. Não volto pra casa hoje. Dorme cedo.”

Ela não respondeu. Removeu o chat fixado, apagou o nome ‘Marido’ e trocou por outro.

....

O quarto parecia saído de um ensaio fotográfico.

Rosas cobriam o chão, as pétalas formando um caminho vermelho que levava da porta até a cama.

Anneliese havia trocado a roupa de cama por seu jogo favorito de seda, num tom amarelo suave, lembrando botões de ouro na primavera.

Ela tinha se dedicado por completo. Cada canto exalava calor e esperança.

Na publicação mais recente, ela usava uma pulseira de diamantes. Os dedos repousavam sobre o peito de um homem, e a legenda soava como uma marcação de território: O amor dele está no diamante. O coração dele, sob minha mão.

Jessica e Anneliese cresceram juntas no mesmo abrigo.

Hoje, Jessica tocava um pequeno negócio com duas amigas, meio detetives, meio garotas de aluguel, especialistas em bicos.

Faziam de tudo: flagrantes de traição, revenda de artigos de luxo, fingir namoro por contrato.

Tudo por um preço.

Jessica puxou as bolsas pra perto.

“Relaxa. Eu revendo e ainda encontro umas garotas do ensino médio pra bancar. Quero ver se o Zacharias entende que mulher também sabe brincar.”

Apadrinhar não era exclusividade dos homens.

Anneliese sorriu e balançou a cabeça.

“Nem precisa. Deixa as coisas pra quem realmente precisa. Nem toda garota em apuros vira uma Coral. E o Zacharias… Ele é lixo. Mas não vou me rebaixar ao nível dele.”

Jessica suspirou fundo e praguejou de novo em silêncio. Zacharias não merecia uma mulher como Anneliese. E, quando ela fosse embora, nunca mais encontraria outra igual.

“E agora? Qual é o plano? A empresa dele tá bombando. Homens como ele, os que vieram do nada, se importam mais com a imagem do que com qualquer coisa. Ele não vai aceitar fácil esse divórcio…”

Jessica não confiava nele. Sentia um pressentimento ruim. Zacharias parecia obcecado, e parte dela acreditava que ele jamais deixaria Anneliese partir.

….

Anneliese ficou em casa naquele dia. Guardou todas as suas coisas, rotulou cada caixa, separou o que levaria quando chegasse a hora.

A avó havia deixado um pequeno apartamento antes de morrer. Assim que o divórcio saísse, ela se mudaria pra lá e recomeçaria.

Ao entardecer, sentou-se diante da penteadeira, escovando o cabelo sob a luz quente e suave. O reflexo parecia calmo, mas o peito pesava.

Zacharias foi buscá-la para o jantar na mansão dos White.

Ele se aproximou por trás, pousou as mãos em seus ombros. O olhar dele encontrou o dela no espelho.

“Alguém está linda”, disse, num tom gentil.

Os cílios dela tremeram. Virou-se e ergueu o queixo.

“Você realmente me ama?”

Ele se inclinou, tentando tocá-la.

“Por que está me perguntando isso? É porque tenho trabalhado demais? Porque não passo tempo suficiente com você?” A voz dele suavizou. “Assim que eu tiver uma folga, vamos compensar. Fazemos o casamento, a lua de mel. Você sempre quis viajar, certo?”

Anneliese se afastou só o bastante pra não ficar em seus braços. A voz dela soou calma.

“Não precisa. Se não me ama, podemos nos divorciar. Não preciso do título de Sra. Shaw.”

Eles se conheciam havia treze anos. Mesmo sem amor, deveria haver ao menos algum cuidado.

Ela queria dar a ele a chance de ser sincero. Queria encerrar aquilo com dignidade. Mas a mão de Zacharias apertou o maxilar dela.

A expressão dele mudou, e a voz desceu, gelada.

“Divórcio? Nem pense nisso. Só a morte vai nos separar!”

A palavra a atingiu como um golpe.

Os ombros dela se enrijeceram. O rosto empalideceu.

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