“O que estão fazendo parados aí?”
A voz veio suave, clara, familiar.
Anneliese atravessou as portas de vidro com o celular na mão.
Os olhos dela estavam serenos. O rosto, impassível.
Zacharias e Christopher trocaram um olhar rápido. Os ombros relaxaram. Sabiam o quanto Anneliese valorizava a família.
Se ela tivesse ouvido o que disseram, não estaria tão calma. Estaria chorando, gritando, desmoronando.
Zacharias sorriu de leve e foi até ela pegar sua bolsa. “Não é nada. Por que não entrou direto?”
Ele estava impecável... Terno cinza-escuro feito sob medida, o tecido ajustado ao corpo alto e elegante. A presença dele chamava atenção, não porque forçasse isso, mas porque o sucesso já se impregnou em cada gesto seu.
A Clauderias Tech havia disparado nos últimos anos. O valor da empresa passava de dez bilhões, e Zacharias, com apenas vinte e sete anos, já era um dos nomes mais promissores da área de tecnologia em Oceaton.
Havia algo magnético nele. Aquela confiança silenciosa. O charme polido. Não precisava correr atrás de ninguém.
Um sorriso leve, um toque de gentileza e quase todas as mulheres cediam.
As mãos de Anneliese tremiam. A pele gelada. Mas Zacharias nem percebeu quando a ponta dos dedos dele roçou as dela.
O que estou fazendo aqui ainda? Por que continuar atrás de algo que é mentira?
Ela forçou um sorriso.
“Recebi uma ligação. Fui atender lá fora pra não atrapalhar vocês.”
Zacharias relaxou imediatamente.
Christopher, ainda impaciente, não se conteve:
“Se vai ser dona de casa, então fique em casa. Não apareça aqui do nada. Se for preciso vir, marque horário. Você é sempre descuidada. Sua irmã nunca faz esse tipo de coisa.”
Se fosse Selina, todos a receberiam de braços abertos. Qualquer atitude dela era vista como elegante, delicada, perfeita.
A voz de Anneliese manteve-se firme. “Você tem razão.”
Christopher franziu a testa. Ela costumava responder. Retrucava, se defendia, fazia drama... Só pra provar que não era menos que Selina.
Mas agora, nada. Nenhuma reação.
Aquele silêncio o incomodou mais do que qualquer resposta. Dava a sensação de que ela nem o via.
Decidiu que era apenas o jeito lamentável de sempre... Apagada, esquecível.
“Vocês não aparecem em casa há um tempo”, Christopher continuou. “Venha pra jantar amanhã. Mamãe e papai querem conversar com vocês.”
Zacharias assentiu. “Tudo bem. Eu levo a Anne.”
Christopher saiu sem olhar pra trás.
Zacharias conduziu Anneliese até o escritório e fechou a porta. Aproximou-se por trás e a envolveu pela cintura.
“Qual a ocasião? Minha doce esposa sentiu saudade de mim?” Ele riu baixinho.
O perfume amadeirado dele, com notas de cedro, a envolveu. Anneliese pousou a mão no peito dele, o olhar caindo sobre a bolsa.
Lá dentro estavam os resultados do exame que ela pegou naquela manhã... O documento que mostrava que finalmente seu corpo estava saudável o suficiente pra tentar engravidar. Mas agora, aquilo não fazia mais sentido algum.
Sem perceber, ela se afastou. O corpo não mentia.
Zacharias franziu a testa. “O que houve com você?”
Ela ergueu o rosto. Parte dela queria estapeá-lo, rasgar as mentiras, quebrar a máscara perfeita que ele usava.
Mas violência não curaria nada.
Ela precisava ir embora, deixar os White pra trás, a verdade sobre o que Selina lhe fez e, acima de tudo, buscar justiça.
“Eu sempre vou ser menos que a Selina?”, perguntou.
Zacharias parou.
Então era isso que ela estava pensando.
Tocou de leve a testa dela com o dedo. “Você não precisa se comparar com ela.”
As palavras soaram gentis, mas tinham duas faces. Ele podia querer dizer que ela era única ou que não chegava nem perto.
Anneliese antes acreditava na primeira opção. Agora, sabia a verdade.
Via com clareza: Zacharias era mestre em fazer o vazio soar doce.
Uma batida na porta. Coral entrou com duas xícaras de café.
Anneliese se afastou dele e sentou-se no sofá.
Coral colocou uma xícara na mesa à frente dela e levou a outra até Zacharias.
“Aqui está seu café, Sr. Shaw”, disse, com voz suave.
Quando ele pegou a xícara, os dedos dela roçaram os dele. O gesto parecia inocente, mas não era. As unhas deslizaram de leve pela pele dele.
“Sra. Slenderidge, não é?”, disse Anneliese, de repente.
Coral congelou. A sala pareceu esfriar. O maxilar de Zacharias se contraiu. Ele segurou o café com força.
Olhou pra Anneliese, que respondeu com um sorriso calmo, quase divertido.
Jovem?, pensou Anneliese.
Sem hesitar, discou um número e levou o aparelho ao ouvido. A chamada atendeu no primeiro toque, mas as palavras não saíram.
Uma voz tranquila veio do outro lado. “Anneliese? Estou aqui.”
Aquele som despertou algo fundo dentro dela. Familiar, mas distante.
O peito apertou. “George, desculpa incomodar tão tarde. Eu só queria saber... Ainda posso entrar no laboratório de pesquisa do Projeto eVTOL?”
A voz saiu fraca, quase um sussurro. As bochechas queimavam de vergonha. Ela nem sabia se tinha o direito de pedir.
Entrou na Universidade de Astoria aos quinze anos, como aluna prodígio em engenharia aeronáutica.
No terceiro ano, já tinha feito avanços em algoritmos de fusão de sensores... Sistemas que permitiam que drones desviassem de obstáculos com mais precisão e estabilidade.
Usou aquela pesquisa em detecção de incêndios florestais. O drone que projetou virou referência em resgate e busca. Até os professores ficaram impressionados.
Eles patentearam o projeto em nome dela. Ofereceram vaga direta no mestrado. O chefe do departamento a aceitou como última discípula. O futuro dela era certo, brilhante, promissor.
Chegou a fundar a Superbflight Aviation com colegas veteranos, uma startup voltada pra câmeras aéreas ultraleves.
Mas quatro anos atrás, desistiu de tudo por Zacharias. Abandonou a faculdade, o laboratório, a carreira.
O professor nunca a esqueceu.
Dois anos antes, ele próprio viajou até Oceaton pra convidá-la a integrar o projeto eVTOL. Ela recusou de novo.
Agora se arrependia. De tudo.
Mordeu o lábio até sentir o gosto de sangue, mas a voz de George continuava calma e acolhedora. “Claro. Eu te disse que, se algum dia quisesse voltar, estaríamos esperando. Quando pode vir? Eu cuido das passagens. Amanhã seria cedo demais?”
Uma pontinha de calor brotou no peito dela. “E o professor...?”
“Ah, você o conhece. Só apareça. Dê um susto nele. Quando te ver, vai esquecer qualquer birra. E, se não esquecer, faça o jantar dele. Se não bastar, faça dois.”
Ela riu entre as lágrimas. “Eu cozinho todo dia, se for preciso. Só preciso de um mês pra resolver algumas coisas aqui. Tudo bem?”
“Claro que sim. Esperaremos.”
“Obrigada. De verdade.”
Encerrou a ligação e ficou em silêncio. O peso no peito, enfim, começou a se dissolver.
Um mês. Ela pediria o divórcio. Iria embora daquela cidade. Voltaria pra vida que sempre foi dela.
Ergueu o olhar, a visão nítida.
Nesse instante, um Bentley preto passou pela rua.
O vidro de trás estava entreaberto. Lá dentro, uma garota jovem estava sentada no colo de um homem, os braços em volta dele... O beijo dos dois ardia como fogo no meio do frio, como se o outono não tivesse nada a ver com eles.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Construí seu império e vi tudo queimar quando ele me traiu