André
Sete dias.
Sete dias desde a explosão, desde a mudança às pressas, desde o medo virar rotina diária. Eu estava no escritório, afundado em processos que pareciam pequenos demais para o peso que eu carregava por dentro. Pensão alimentícia. Guarda compartilhada. Revisões de acordo. Papéis empilhados, decisões técnicas, vidas em suspenso.
Era um dia que prometia ser tranquilo. Audiências simples. Um mutirão de resoluções rápidas. Nada que exigisse mais do que foco e método.
O sistema apitou.
Olhei a tela por reflexo. Um ofício novo.
Abri.
Li uma vez. Depois outra.
A separação de Branca tinha sido concluída.
Concluída.
Senti algo quase físico atravessar meu peito, um alívio quente, imediato, seguido de uma alegria que eu não me permitia sentir havia semanas. Levantei da cadeira de um pulo, empurrando-a para trás com força demais.
“Não acredito”, murmurei.
Saí do escritório praticamente correndo. Nem bati.
A porta da sala da Laís se abriu com tudo. Ela levantou no susto, já preparada para o pior.
“O que foi? Aconteceu alguma coisa com a Branca? Com o Cássio?”
Eu só consegui sorrir. Abri o ofício e ergui como um troféu.
“Acabou.”
Ela piscou.
“Acabou o quê?”
“A separação. Foi concluída. Ela está oficialmente livre daquele monstro.”
Laís levou a mão à boca por um segundo. No seguinte, pulou da cadeira e veio até mim, rindo e quase chorando ao mesmo tempo.
“Meu Deus. Meu Deus, André!”
Ela me abraçou rápido, impulsiva, forte. O perfume dela, algo cítrico e leve, invadiu meu espaço por um instante. O abraço durou mais do que o necessário, mas nenhum de nós se mexeu para soltar primeiro.
“Ela conseguiu”, disse ela contra meu ombro. “Finalmente.”
“Conseguiu”, confirmei, com a voz rouca. “Agora ela pode ao menos saber que nada mais a liga a ele.”
Laís se afastou um pouco, os olhos brilhando.
“Já contou pra ela?”
“Não.” A empolgação deu lugar a um cuidado imediato. “Eu pensei em ligar, mas… sei lá. Tenho medo de quebrar a bolha de romance que deve estar rolando. Depois de tudo o que eles passaram…”
Bufei, meio rindo.
“Liga e conta." Ela falou animada. "Isso não quebra bolha nenhuma. Isso reforça.”
"Vou fazer isso." Olhei o relógio. “Eu vou para uma audiência agora. Provavelmente fico a tarde toda no fórum. Fizeram um mutirão de pequenas resoluções.”
Ela assentiu.
“Tá. Eu ligo para ela então. Ela vai ficar tão feliz!” ela se virou.
Antes que ela voltasse para a mesa, completei:
“Depois a gente podia sair para beber alguma coisa e comemorar. O que acha?”
Laís sorriu de lado, um sorriso lento, quase provocador.
“Topo. Preciso ir para algum lugar beber muito e dançar.”
Ergui uma sobrancelha.
"Dançar?"
“Gosta de dançar, senhor Bayron?”
Ela me encarou em expectativa.
“Não.”
Ela riu baixo.
“Sem problemas. Você pode assistir.”
“Generosa da sua parte.”
“Então combinado.”
Ela caminhou comigo até a porta, praticamente me colocando para fora, e eu fiquei parado por um segundo a mais do que deveria, sentindo o ar ficar mais denso de repente. Onde eu tinha me metido?
Voltei para minha sala, peguei minhas pastas, ajeitei o paletó e segui para o fórum.
A toga caiu sobre meus ombros como sempre. Familiar. Reconfortante. Eu sabia exatamente quem eu era ali.
Conduzi as audiências com precisão. Casos simples, decisões objetivas. Pessoas saíram aliviadas, outras contrariadas. Nada fora do previsto.
Terminei tudo antes do horário estimado.
Por algum motivo, eu estava ansioso.
O que era ridículo. Eu detestava lugares cheios. Música alta. Gente demais. Mas a ideia da noite… não me incomodava tanto quanto deveria.
Quando saí do fórum, mandei mensagem.
“Qual o endereço? E a que horas eu te busco?”
A resposta veio rápida.
“Te mando já. 21h está ótimo.”
Olhei o relógio.
Ainda faltavam algumas horas.
Tempo demais para pensar. Voltei para casa e fiquei ali, esperando os minutos se escorrerem.
***
Às 20h55, estacionei em frente ao prédio dela.
Respirei fundo antes de descer do carro, me perguntando pela décima vez se aquilo tinha sido uma boa ideia.
Então ela apareceu.
E todas as dúvidas evaporaram.
Laís desceu os degraus com um vestido preto curto demais para quem passava o dia inteiro discutindo processos e sério demais para parecer casual. O tecido abraçava as curvas sem exagerar, mas o decote sutil e as costas quase nuas eram uma declaração silenciosa. Cabelo solto, maquiagem leve, boca vermelha escura.
Ela era boca dura, sim. Mas linda pra caralho.
Desci do carro e abri a porta para ela.
“Nada.”
Ela inclinou o corpo um pouco mais para perto, o decote sutilmente mais visível.
“Então vai ter que me ensinar outra coisa.”
“Tipo?”
Ela sorriu devagar.
“Tipo… como relaxar sem parecer que tá perdendo o controle.”
Eu ri baixo, nervoso pela primeira vez em anos.
“Eu não sei se consigo.”
Ela colocou a mão na minha coxa, leve, quase casual, mas o toque queimou através da calça.
“Então deixa eu te mostrar.”
A música mudou para algo mais lento, mais grave. Ela se levantou, estendendo a mão.
“Vem. Só um pouco. Prometo não te envergonhar.”
Eu hesitei por um segundo.
Depois peguei a mão dela.
E deixei ela me levar para a pista.
Não era dança de verdade. Era só movimento. Corpos próximos, mãos na cintura dela, as dela nos meus ombros. O vestido subia um pouco quando ela se movia, e eu sentia cada curva sob meus dedos. Ela encostou o rosto no meu pescoço por um instante, o hálito quente na minha pele.
“Você tá tenso”, sussurrou.
“Estou.”
“Relaxa, André.” A voz dela era baixa, quase um ronronar. “Aqui ninguém tá julgando. Só existe a música… e nós.”
Eu fechei os olhos por um segundo, deixando o corpo seguir o dela. O quadril dela roçando no meu de leve. A respiração dela acelerando junto com a minha.
Quando abri os olhos, ela me olhava de perto demais. Boca entreaberta. Olhos escuros.
“Você já pensou em me beijar?”, perguntou, direta.
Meu coração disparou.
“É o que eu to querendo fazer desde que te peguei em casa...”
Ela sorriu, lenta.
“Então por que não faz?”
Eu não respondi com palavras.
Inclinei o rosto e a beijei.
Foi lento no início. Testando. A boca dela macia, quente, respondendo com uma urgência controlada. A língua dela encontrou a minha, e o mundo sumiu. Só existia o gosto dela, o calor da mão dela na minha nuca, o corpo dela pressionado contra o meu.
Quando nos afastamos, estávamos ofegantes.
Ela sorriu contra meus lábios.
“Acho que a noite acabou de começar.”
Eu sorri de volta.
“Acho que sim.”

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