André
O prédio surgiu no horizonte antes mesmo de eu reduzir a velocidade, mas o que fez meu estômago revirar não foi a silhueta conhecida. Foram as luzes azuis e vermelhas piscando contra as fachadas de vidro, refletindo em ondas nervosas nas janelas. Viaturas estacionadas de qualquer jeito, uma ambulância com as portas abertas, policiais com coletes e lanternas varrendo o perímetro.
Laís apertou minha mão com força no banco do passageiro, os dedos frios e trêmulos.
"O que tá acontecendo?"
Eu já estava abrindo a porta antes do carro parar completamente, o motor ainda ronronando baixo.
Cássio estava na entrada principal, conversando com Marcos e dois policiais. A postura dele era rígida demais: ombros travados, punhos cerrados ao lado do corpo, como se estivesse se segurando para não explodir. Ele parecia a um fio de perder o controle.
Me aproximei rápido, o coração martelando no peito.
"O que aconteceu?"
Ele virou para mim. Os olhos estavam vermelhos, não de choro, de ódio puro.
"Ele levou ela."
Meu coração travou por um segundo.
"Jonathan."
Laís ficou rígida ao meu lado, o ar saindo dela em um suspiro curto e afiado.
"Como?", perguntei.
"Ele infiltrou homens na equipe. Dois falsos seguranças. Pegaram ela na garagem, quando ela desceu com o lixo."
Minha mandíbula travou. Virei para Marcos.
"Como isso passou pela sua equipe? Eu achei que você tinha olhos em todos os pontos."
Minha voz saiu baixa, controlada, o tipo de controle que é pior do que gritar.
Marcos engoliu seco, o rosto pálido.
"Eles tinham credenciais. Documentação falsa, mas muito bem feita. A troca de escala foi ontem à noite. Eu não chequei pessoalmente."
"Claro que não, se tivesse feito minha irmã estaria aqui."
"Eu estou ciente senhor, estamos colaborando com tudo que é possível para achá-la" Esfreguei a mão no rosto com raiva.
"E qual o próximo passo?" Laís questionou.
"Estamos verificando a placa do carro."
"E??" Falei impaciente.
"Fria. Roubaram ou clonaram."
"Nome dos homens?"
"Falso. Tudo falso."
Eu ri sem humor, um som seco que não chegou aos olhos. Perfeito. Planejado.
Laís tocou o braço de Cássio.
"E onde está a Aelyn?"
"Está no apartamento. Com uma vizinha." Eu tenho que ir lá, mas... eu estou desesperado, não quero que ela m veja assim."
"Eu vou subir." Vou ficar com ela até vocês trazerem a Branca de volta."
Ela saiu antes que alguém respondesse, passos rápidos desaparecendo no saguão.
Olhei para Cássio. Ele estava à beira do colapso. O tipo de colapso que vira violência cega.
"Respira", falei baixo.
"Não manda eu respirar!" Ele explodiu, voz rouca, os punhos tremendo. "Ele pegou ela! Dentro do meu prédio! Dentro da minha casa! Como você quer que eu faça qualquer outra coisa que não seja surtar?"
Segurei o ombro dele com firmeza, apertando o suficiente para que ele sentisse.
"Se você perder o controle agora, ele ganha. Ele quer você assim: louco, impulsivo, fazendo besteira. Não entregue isso."
Silêncio pesado.
Ele respirou fundo, o peito subindo e descendo rápido demais.
"Tem alguma pista?", perguntei.
"Não. Nada."
Balancei a cabeça.
"Talvez eu tenha."
Cássio me encarou, os olhos estreitados.
"Eu só preciso de um minuto."
"Uma Krieger que odeia perder."
Ele assentiu devagar.
"Se ela nos trair..."
"Ela não vai. O Jonathan é o lado mais falido da família. Ana tem um arsenal muito mais amplo e uma rede de apoio muito maior. Ela é o orgulho do avô deles."
Cássio passou a mão pelo rosto, a respiração ainda pesada.
"O que você acha que ele vai fazer com ela?"
Essa era a pergunta que eu não queria responder.
Sustentei o olhar dele.
"Ele quer controle. Ele quer medo. Ele quer provar que ainda manda."
Cássio fechou os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
"Se ele tocar nela..."
Eu o interrompi.
"Não pense no pior. Ele precisa dela viva... e nós temos alguém de dentro ao nosso lado."
O celular vibrou na minha mão. Número desconhecido.
Atendi.
"Fala." Ana soltou o ar, irritada.
"Ele não está na cidade."
Meu coração afundou.
"Ele está em uma propriedade antiga da família. Fora da rodovia principal. Um galpão que oficialmente não existe mais."
Troquei um olhar com Cássio.
"Me manda o endereço por mensagem."
"Já mandei. E por favor, não me procure mais." Ela desligou e sorri satisfeito.
"Temos uma pista." falei, chamando a atenção de todos.

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