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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 139

Laís

Estou tensa desde que André saiu, mas não posso demonstrar nada. Aelyn me observa o tempo todo com aqueles olhos grandes e atentos que parecem captar cada mudança no ar. Ela sente quando algo não está certo, como se tivesse um radar interno para preocupações de adulto.

Sentada no tapete da sala, com as pernas cruzadas e o queixo apoiado nas mãos, ela pergunta pela quinta vez na última meia hora.

“Cadê o papai? E a tia Branca?”. Eu forço um sorriso tranquilo, mesmo que o coração esteja apertado como se alguém tivesse enrolado uma corda em volta dele, e respondo com a voz mais leve que consigo.

“Eles tiveram que resolver um problema grande, meu amor. Mas já estão voltando, prometo”. Ela franze a testa, desconfiada, e insiste.

“Que problema?”.

"Problema de adulto, daqueles chatos que a gente não entende direito”, digo, dando um beijo demorado no alto da cabeça dela, sentindo o cheiro de xampu de morango que sempre me acalma um pouco. “Agora vem cá, vamos terminar o quebra-cabeça juntas antes que eles cheguem e achem que a gente desistiu.”

Espalho as peças coloridas pelo chão da sala, invento histórias malucas para cada pedacinho que encaixa, faço mímica exagerada de torre alta e princesa gritando por socorro, coloco uma playlist animada no celular e improviso um teatro inteiro com vozes diferentes.

Ela ri por alguns minutos, os olhos brilhando, as mãozinhas batendo palmas quando acerto uma peça no lugar certo. Mas o riso dura pouco; sempre volta a pergunta, sempre volta o olhar para a porta.

“Eles estão demorando muito, né?”, ela murmura, e eu sinto o estômago revirar porque sim, estão demorando demais, e cada minuto sem notícia parece uma eternidade.

Pego o celular mais uma vez, disfarçadamente, deslizando o dedo na tela como se fosse só checar a hora. Nenhuma ligação perdida. Nenhuma mensagem nova. Respiro fundo, forçando o ar a entrar devagar para que a ansiedade não transpareça no rosto, e tento mudar o foco.

“Quer brincar de estátua? Quem se mexer primeiro perde e tem que imitar um animal engraçado”. Ela concorda, animada por um instante, mas os olhos continuam voltando para a porta, como se esperasse que ela se abrisse a qualquer segundo.

Quando finalmente a fechadura gira, meu coração quase sai pela boca. Aelyn dispara antes mesmo da porta abrir totalmente, gritando “Titio!” com uma alegria que dissolve metade da tensão acumulada na sala.

André entra carregado de sacolas: uma transbordando de doces coloridos, outra cheia de bichinhos de pelúcia, incluindo um unicórnio rosa gigante, e a terceira com caixas de hambúrguer que ainda estão quentes. Ele mal consegue se equilibrar quando Aelyn pula nas pernas dele, abraçando as coxas como se nunca mais fosse soltar. Eu me levanto rápido para ajudá-lo a não derrubar tudo, pegando duas sacolas antes que caiam no chão.

Não pergunto nada na frente dela. Não preciso. Só de olhar para o rosto dele, calmo, firme, com um brilho de alívio nos olhos que eu conheço bem, eu sei que deu certo. Tudo terminou como tinha que terminar.

“Olha o que eu trouxe, princesa!”, ele anuncia animado, abrindo as sacolas como se fosse Natal fora de época. Aelyn grita de felicidade ao ver o unicórnio rosa, abraçando o bicho com tanta força que quase o sufoca.

A tensão na sala muda de temperatura em segundos; o ar pesado vira algo leve, quase festivo. Sentamos no chão, abrimos as caixas de hambúrguer, espalhamos batata frita e doces, e jantamos entre risadas e histórias exageradas.

André faz vozes ridículas para os personagens do quebra-cabeça inacabado, imita o dragão preguiçoso com um ronco cômico, e Aelyn gargalha tanto que lágrimas de riso escorrem pelo rosto dela. Eu observo os dois, o peito cheio de uma gratidão silenciosa que não cabe em palavras.

Mais tarde, quando ela começa a bocejar e esfregar os olhos, André a pega no colo com cuidado. “Hora de dormir, princesa. Senão, o unicórnio rosa vai ficar com ciúmes e fugir pra cama errada.” Ela ri baixinho, já mole de sono, e ele a leva para o quarto, contando uma historinha improvisada sobre unicórnios que salvam princesas de problemas de adulto.

Nós nos afastamos no mesmo instante, como adolescentes pegos no flagra. Aelyn está parada no meio do corredor, segurando o unicórnio rosa contra o peito, olhando para nós com uma curiosidade solene e sonolenta.

André limpa a garganta, tentando parecer sério. Eu cruzo os braços e tento manter a pose de adulta responsável.

“Vai dormir, mocinha. Já passou da hora.” Ela inclina a cabeça, analisando a cena como uma detetive mirim.

“Então estão namorando sim.” E, sem esperar resposta, vira as costas e volta arrastando os pés para o quarto, murmurando para o unicórnio: “Eu sabia. Eles ficam se olhando igual meu papai e a tia Branca.”

André me olha. Eu começo a rir baixo, tentando não acordar a casa inteira. Ele balança a cabeça, rindo também, e murmura.

“A gente foi pego por uma criança de cinco anos. Acho que nosso segredo acabou.” Eu dou de ombros, ainda rindo

“Pelo menos ela aprovou. E trouxe o unicórnio como testemunha.” Ele me puxa de novo para o abraço, rindo contra meu cabelo.

“Da próxima vez a gente tranca a porta. Ou contrata a Aelyn como detetive particular.”

A casa parece segura de verdade, cheia de risadas abafadas, sacolas de hambúrguer e um unicórnio rosa que, segundo a especialista de cinco anos, já sabe de tudo.

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