André
“Fecha a porta.”
A voz do Cássio veio baixa, mas firme, do jeito que ele usava no tribunal. Meu estômago revirou na hora. Porque quando ele fala assim, não era convite. Era uma ordem. E eu obedeci.
O escritório dele cheirava a madeira, café velho e uísque caro. A cidade lá fora fazia barulho pela janela, buzinas distantes e sirenes que ainda me lembravam do galpão.
Eu ainda via o rosto da Branca sangrando. E isso me deixava meio sem ar.
Cássio tirou dois copos do armário e serviu sem perguntar. O gelo tilintou como se estivesse zombando da minha tensão.
“Bebe”, ele disse, me entregando, e olhei para o líquido antes de virar de uma vez.
Ele se sentou na poltrona grande, a postura relaxada demais para alguém que tinha acabado de atravessar um inferno. Mas os olhos… os olhos não estavam relaxados. Estavam alertas. O braço enfaixado denunciava o resto.
“Agora fala”, ele disse.
Eu soltei o ar devagar.
“Eu nem sei por onde começar.”
“Começa pelo que te deixou com essa cara”, ele falou, apontando com o copo para mim. “Você está parecendo um adolescente que fez besteira. Só fala sobre o que você e a Laís estão escondendo."
Eu soltei um riso curto. Sem humor.
“Não só parece. Eu fiz besteira.”
Ele levantou uma sobrancelha.
“Fez o quê?”
Eu olhei para o uísque, girando o copo na mão. Minhas palmas estavam suando, e isso era ridículo. Como se eu estivesse prestes a levar bronca do meu pai, não do meu amigo.
“Eu… eu e a Laís…”
A palavra travou na garganta.
Cássio inclinou o corpo para a frente. “Você e a Laís o quê?”
Eu respirei fundo.
“Nos casamos.”
Um segundo de silêncio.
Só um.
Cássio tinha acabado de levar o copo à boca… e cuspiu o uísque no chão.
“Vocês o quê?” ele falou, tossindo, rindo e xingando ao mesmo tempo. “Você tá de brincadeira comigo.”
Eu levantei as mãos. “Fala baixo, porra.”
Ele passou a mão no rosto, incrédulo. O riso dele veio fácil, mas eu vi a tensão por trás. Vi porque eu o conheço.
“Você casou em Vegas com a melhor amiga da minha mulher”, ele disse, como se estivesse testando o som das palavras. “E eu descobri por uma criança.”
“Sua filha deveria estar dormindo naquela hora”, eu falei, a voz embargada de vergonha.
“Ela tem um faro melhor que o seu”, ele falou, e riu de novo.
Eu tentei rir junto.
Não deu.
Cássio se recostou, mais calmo, mas ainda com aquele brilho de diversão no olhar. “Tá, é facil resolver isso. Anula e pronto.”
Essa palavra me deu um soco no peito.
Anular.
Como se fosse um contrato qualquer. Como se eu não tivesse sentido o coração disparar no momento que o cara em Vegas falou “marido e mulher”, e eu pensei: Pronto. Fiz merda. E eu gostei.
Eu balancei a cabeça.
“Não.”
Cássio parou. O riso sumiu aos poucos. “Você não quer?”
“Não.” Eu senti um nó na garganta.
Ele me encarou por alguns segundos, sério agora. “Por quê?”
Eu respirei fundo, mas o ar não parecia entrar direito.
“Porque eu quero conhecê-la.”
Cássio piscou, como se não esperasse essa resposta.
“Eu quero… de verdade”, eu continuei, e senti minhas bochechas queimarem de raiva de mim mesmo por estar soando carente. “E casados… ela não tem como fugir.”
Contei o que eu pensava. E me arrependi na mesma hora.
Cássio soltou uma risada curta, balançando a cabeça. “Você tá usando casamento como coleira.”
“Não é isso”, eu falei rápido.
Ele apontou com o copo. “É sim. Só que você tá chamando de romance.”
Eu apertei a mandíbula.
“Eu não quero prendê-la”, eu falei, a voz saindo mais dura. “Eu só… eu não quero perder. Laís é arisca demais."
Porque perder dói.
Ele levantou o copo, como se brindasse. “De nada.”
Por um segundo, o clima ficou mais leve.
Até ele inclinar a cabeça, com aquele sorriso provocador.
“E eu nem posso pedir pra ser padrinho.”
Eu revirei os olhos. “Nem começa.”
Ele riu baixo. “Meu amigo casado e eu descobrindo no café da manhã. Eu mereço um pedido de desculpas.” Gargalhamos.
Meu celular vibrou na mesa, quebrando o momento que começava a se tornar mais leve.
O som cortou o ar como uma lâmina.
Eu olhei a tela.
Emily.
Eu bufei na hora, como se o corpo reconhecesse o problema antes da cabeça.
Cássio percebeu.
“Quem é?”, ele perguntou.
Eu virei o celular para ele.
O rosto dele endureceu.
“O que ela quer?” ele disse, a voz ficando fria.
A tela continuava vibrando. Meu peito apertou. Minha mão suou mais.
Emily não ligava assim… do nada. Não quando não era para causar alguma coisa.
Eu deixei tocar.
Deixei tocar mais um pouco.
E o nome dela piscando parecia um aviso.
Cássio se inclinou para a frente, os olhos fixos em mim.
“Você não vai cair no jogo dela de novo, vai?”
O celular vibrou mais uma vez.
E dessa vez… veio uma notificação junto, uma mensagem curta que fez meu estômago virar.
E eu não consegui responder o Cássio.

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