Emily
O cheiro do hospital é irritante. Fiz tudo aquilo só para ter certeza de que eu ainda tinha algum poder sobre o André, mas, para a minha surpresa, ele não se importou. Não se moveu, ficou lá, com aquela idiota, esperando os paramédicos me examinarem e me levarem.
Abro os olhos lentamente, fingindo estar mais fraca do que realmente estou. A luz do quarto me incomoda de propósito. Levo a mão à testa, como se ainda estivesse confusa.
“Emily?” A voz de dona Vânia vem imediatamente ao meu lado.
Claro que ela não saiu daqui. Já era alguma coisa. Mas eu não queria ela ali. Eu queria ele.
Que ódio.
Viro o rosto devagar, piscando algumas vezes, como se estivesse tentando entender onde estou.
“O que… aconteceu?” Ela aperta minha mão com força.
“Você desmaiou.” Faço uma pequena careta.
“Eu… desmaiei?”
“Sim.” Ela suspira. “Depois daquela discussão. Você sempre foi tão frágil, menina. O André sabia que isso poderia acontecer, mas ainda assim...”
"Eu... eu..." finjo uma confusão, mas que em nada é verdade. Fiz tudo aquilo para chamar a atenção, e o que consegui? Indiferença de quem prometeu sempre me amar, apesar de tudo.
Maldito André Bayron!
Eu não conseguia entender o que tinha acontecido com ele. Mesmo depois do que eu fiz, nós ficamos algumas vezes, e ele sempre me tratou igual. Mesmo que nunca mais tenha dito para ficarmos juntos de novo, eu achava que... era questão de tempo.
Mas pela forma como ele me olhou. Como se eu fosse… nada.
Fecho os olhos por um segundo, tentando deter a raiva que está prestes a explodir em meu peito.
Aquela advogadazinha conseguiu mesmo fazer a cabeça dele.
Abro os olhos novamente. E estendo a mão para dona Vânia.
“Me desculpe.” Minha voz sai baixa e fragilizada. Ela imediatamente se inclina mais perto.
“Você não precisa pedir desculpas.”
“Eu só quis ajudar,” digo. “Eu realmente achei que aquela mulher estivesse se aproveitando da bondade do André.” Deixo minha voz falhar um pouco. “Mas olha como ele me tratou.”
Ela aperta minha mão novamente.
“Ele está cego.” Faço uma pausa. “Cego por ela.”
Dona Vânia bufa irritada.
“Ele vai recobrar a consciência.” Ela se ajeita na cadeira ao lado da cama. “Meus filhos são cabeças-duras. Mas não são burros.” Um pequeno sorriso surge nos meus lábios. “Logo tudo volta ao normal,” ela continua. “Branca vai largar aquele juiz irritante e André...” Meu coração falha um segundo. Juiz?
“E o André vai largar essa advogadazinha interesseira.”
Ela faz um gesto irritado com a mão.
“Essas coisas passam. Tenha calma que logo tudo volta ao normal."
Eu estreito os olhos, devagar, tentando assimilar tudo.
“Branca não está mais com o Jonathan?” Dona Vânia faz uma careta. “Graças a Deus, não. Eles se divorciaram e ele está preso pelos seus crimes.”
Fico em silêncio, então ela continua.
“Mas infelizmente o neto faleceu.” Meu corpo enrijece.
“Como?”
“Um acidente de carro. Enquanto Branca ainda fugia dele. Ela rodou tanto e acabou vindo morar onde eu e André estávamos morando. É o destino. A família ficar junta.”
Arregalo os olhos. Meu cérebro começa a trabalhar imediatamente. Isso complica tudo.
Porque se alguém descobrir… Se alguém ligar os pontos… Se descobrirem que Jonathan e eu já nos envolvemos… Enquanto ainda estávamos com os irmãos Bayron… Isso pode virar um desastre. Rapidamente escondo qualquer reação.
“Que triste,” murmuro.
Vânia suspira.
“Mas a Branca seguiu em frente.” Inclino a cabeça.
“Com quem?” Ela revira os olhos.
Isso fica impossível.
Vânia pega o celular.
“Estou tentando ligar para o André.” Ela franze a testa. “Mas ele não atende.”
Reviro os olhos internamente, ele nem se importou com meu mal-estar.
“Deve estar com aquela lambisgoia.” ela continua falando.
Seguro a mão dela novamente.
“Esquece isso.”
Ela me olha surpresa. Eu faço um pequeno esforço para parecer triste, fingindo derrota.
“Ele não me ama mais. Eu vou ter que seguir em frente.” Olho para o teto. “Mesmo sendo doloroso ver o homem da minha vida com outra.”
Dona Vânia aperta minha mão com força. Os olhos dela brilham, cheios de irritação.
“Isso não vai ficar assim.” Ela se levanta da cadeira. “Eu vou dar um jeito nisso.”
Um pequeno sorriso surge dentro de mim.
Porque naquele momento…
Eu percebo.
Não preciso fazer tudo sozinha.
Enquanto ela caminha pelo quarto, furiosa, ela murmura:
“Ou eu não me chamo Vânia Bayron.”
E eu sorrio.
Porque guerra com aliados…
Sempre é mais fácil de vencer.

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