Cássio
Saio de casa antes do sol nascer completamente. O mais difícil foi não acordar Branca.
Ela dormia profundamente quando me levantei, enrolada no lençol, com o cabelo espalhado no travesseiro. Por um segundo pensei em voltar para a cama e ignorar a ligação, e me agarrar a ela.
Mas André não me ligaria àquela hora sem motivo. Com certeza não é coisa boa.
Dirijo pelas ruas quase vazias da cidade, tentando imaginar o que poderia ser tão urgente. Quando chego ao lugar combinado, o bar do Jere’s ainda está meio vazio. Apenas alguns funcionários organizando as mesas e dois ou três clientes madrugadores tomando café.
Vejo André sentado em uma mesa no fundo. Sua expressão não é das melhores, o que faz meu humor ficar ainda pior. Como que nosso dia pode comelar tão ruim assim.
Cumprimento o dono, que é um conhecido de longa data e paro ao lado da mesa.
"Preciso me preocupar?" André nem me olha.
"Só senta logo ai." Sento na cadeira à frente dele e solto o ar.
“Sério…” Passo a mão pelo rosto. “Nem no sábado eu tenho paz.”
Ele levanta os olhos.
“Você acha que eu queria estar aqui?”
Dou um sorriso de lado.
“Não sei, só sei que eu poderia estar agarrado à minha mulher na cama. Isso me deixaria muito mais feliz, do que ter que vir te encontrar a essa hora aqui.”
André bufa imediatamente.
“Eu não preciso desses detalhes.” Ele balança a cabeça. “Você está falando da minha irmã, porra.”
“Eu sei.”, dou risada.
Ele acaba rindo também. Por alguns segundos, o clima alivia, mas então percebo o envelope sobre a mesa.
E o rosto dele volta a ficar sério, seus dedos alisam aquele envelope, e sinto que estaqmos bem prestes a destruir nossos mundo de novo.
“O que aconteceu?”
André respira fundo.
“Acharam a Glória.”
Meu corpo reage na hora.
“Onde?” Mas ele não responde. Só empurra o envelope na minha direção.
Meu estômago aperta.
“Isso é bom, não é?” pergunto.
Abro o envelope. As fotos caem sobre a mesa. E o ar some dos meus pulmões. Levo alguns segundos para conseguir falar.
“Isso só pode ser brincadeira.”
André fica em silêncio. Eu levanto os olhos.
“Ela está morta.”
Ele confirma com a cabeça.
“Confirmaram que é ela.”
Passo a mão pelo cabelo. Minha mente começa a correr em va´rias direções, pensando em tudo que pode decorrer a partir disso.
“E o que isso nos prejudica?”
André se recosta na cadeira.
“Depende de para onde a investigação vai. Você sabe como é. Primeiro eles vão atrás de quem acham que pode ter cometido o crime.” Ele me encara. “Mas sim… podem colocar você e a Branca como suspeitos.”
“Claro que está.”
André suspira.
“Nem fala.” Ele passa a mão pelo rosto. “Eu não sei o que é pior.”
O silêncio se instala por alguns segundos.
Eu olho novamente para as fotos. Glória morta, torturada. Quem ia querer fazer isso?
“E o que a gente faz agora?” Olho para ele. “Eu não vou esperar acusarem a Branca de algo que ela não fez.” Minha voz sai mais dura. “Ela é a vítima aqui. De todos esses filhos da puta. Até de mim. Ela é a única que não teve culpa de nada. Então me diz o que fazer? Devo tirá-la do país?"
André franze a testa.
“Não.” Ele pensa por um momento. “Vamos esperar um pouco.”
Cruzo os braços.
“Esperar o quê? A polícia bater na nossa porta e a levar? Nem fodendo.”
Ele se inclina um pouco sobre a mesa.
“Eu tenho a impressão de que Jonathan está metido nisso.” Fico olhando para ele por alguns segundos. Tentando entender.
“Por quê?”
André responde sem hesitar.
“Porque, na cabeça dele…” Ele faz uma pausa. “…só ele podia tirar a vida da Branca.”
O silêncio pesa entre nós.
Porque, pela primeira vez desde que essa história começou… Essa possibilidade faz sentido demais.

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