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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 178

Cássio

Eu não consegui dormir.

E sei que a Branca também não.

O quarto está escuro, silencioso, mas o silêncio entre nós não tem nada de tranquilo. Estamos deitados, abraçados, como se o calor um do outro fosse suficiente para manter o resto do mundo do lado de fora, só que não é. Eu sinto no corpo dela a mesma tensão que carrego no meu. O jeito como a respiração dela muda de vez em quando, como os dedos se movem levemente contra meu peito, como se a cabeça dela estivesse correndo por caminhos que nem ela mesma consegue organizar.

Eu poderia fingir que dormi. Poderia esperar o dia amanhecer, tentar empurrar esse assunto para depois, como se algumas horas de escuridão fossem capazes de aliviar o peso que se instalou dentro da nossa casa. Mas não sou feito desse tipo de covardia. E, pelo jeito, ela também não.

"Amor…"

Minha voz sai baixa, quase um sussurro contra os cabelos dela.

Ela não responde de imediato, mas sinto o corpo dela se enrijecer um pouco mais, como quem já sabe que eu também estou acordado.

"O que você quer fazer agora?" pergunto, passando a mão devagar pelas costas dela. "Eu sei que sua cabeça está cheia de planos, de possibilidades, de medo… e eu sei que você já deve estar tentando resolver tudo sozinha." Respiro fundo antes de continuar. "Mas eu quero que me inclua em todos eles."

Ela se mexe nos meus braços, desconfortável, e levanta um pouco o rosto para me olhar no escuro.

"Você deveria estar dormindo."

Eu sorrio de lado, mesmo sabendo que ela provavelmente mal consegue ver.

"E eu deveria estar exatamente onde estou."

Deslizo os dedos pelo rosto dela, afastando uma mecha de cabelo.

"Cuidando de você."

Ela fecha os olhos por um instante, como se aquilo a desarmasse mais do que gostaria, e quando volta a me olhar há um cansaço ali que me aperta por dentro.

"Eu não sei como ajustar isso, Cássio." A voz dela sai baixa, falha. "Não sei como fazer as coisas darem certo com eles pairando sobre vocês o tempo todo. Sobre você… sobre a Aelyn… sobre o André…"

Eu trago ela ainda mais para perto, sentindo o peso da culpa que ela tenta esconder em cada palavra. E é justamente isso que me faz decidir falar.

"Acho que a gente precisa conversar com a sua mãe."

Ela fica imóvel por um segundo.

"Minha mãe?"

Passa a língua nos lábios, pensativa.

"E vou ver se o André me ajuda com isso." Um pequeno suspiro escapa. "Embora, sinceramente… eu ache que todos nós estamos no mesmo barco quando o assunto é a minha mãe."

Eu sorrio sem humor, porque ela não deixa de estar certa. Ainda assim, aperto mais o abraço em volta dela.

"Então a gente rema junto."

Ela me olha daquele jeito que me desmonta inteiro, como se quisesse acreditar em cada palavra que digo, mas ainda estivesse cansada demais para entregar tudo ao alívio. E então ergue um pouco mais o rosto, silenciosamente pedindo aquilo que nem sempre consegue dizer.

Carinho. Refúgio. Paz.

Eu não preciso de mais nada para entender.

Minha boca encontra a dela com cuidado, num beijo lento, suave, quase reverente. Não há urgência no começo, só a necessidade de sentir que ela está aqui, comigo, respirando o mesmo ar, dividindo o mesmo medo e a mesma esperança. Minhas mãos percorrem suas costas, seus cabelos, seu rosto, como se cada toque fosse uma promessa muda de que eu não vou soltá-la.

Ela corresponde devagar, se entregando aos poucos, e o beijo vai mudando de forma sem que eu perceba exatamente quando. A delicadeza continua ali, mas começa a ganhar calor. Intensidade. Fome. Como se toda a tensão da noite, toda a raiva que eu engoli, todo o medo que tentei organizar em planos… encontrasse nela um único lugar possível para existir sem me destruir.

E, em poucos minutos, o que era cuidado começa a incendiar.

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