Cássio
Espero a respiração da Branca desacelerar antes de me mexer.
Ela continua abraçada a mim, mesmo depois de o choro diminuir, como se meu corpo fosse a única coisa impedindo o mundo de desabar de vez sobre a cabeça dela. Talvez seja. Talvez, neste momento, tudo o que eu realmente possa oferecer seja isso: presença, firmeza e a promessa silenciosa de que não vou deixar ninguém arrancá-la de mim de novo.
Passo a mão pelos cabelos dela uma última vez, beijo sua testa e só me afasto quando tenho certeza de que ela está mais calma. Não em paz, porque isso seria pedir demais depois do que ouviu hoje. Mas estável o suficiente para não se partir no instante em que eu sair do quarto.
"Vou conversar com o André sobre o que eu estou planejando Deite e descanse um pouco. Já volto para ficar com você." ela confirma, demorando para soltar minha camisa e me deixar ir.
Quando abro a porta, encontro André no corredor.
Ele está encostado na parede, braços cruzados, olhar duro. Não diz nada de imediato, mas eu conheço aquela expressão. É a cara de um homem que já está contando os danos antes mesmo de o próximo golpe acontecer.
"Ela dormiu?", ele pergunta, baixo.
"Não." Fecho a porta com cuidado atrás de mim. "Mas parou de chorar."
Ele passa a mão pelo rosto, tenso.
"Já é alguma coisa."
Dou dois passos em direção à escada e faço um gesto com a cabeça para que ele me acompanhe. Não quero essa conversa perto demais do quarto. Não quero correr o risco de a Branca ouvir qualquer palavra solta e transformar aquela manhã ruim em uma sentença de desespero.
Descemos em silêncio e paramos no escritório.
Assim que fecho a porta, a calma que mantive até agora desaparece.
"Agora me fala tudo que sua mãe falou."
André solta o ar devagar, como se estivesse organizando as peças na própria cabeça antes de me entregar o tabuleiro inteiro. Então começa a repetir a conversa com a mãe deles, e cada nova informação vai me deixando mais convencido de uma coisa: nós subestimamos o tamanho da estrutura contra a qual estamos lutando.
Victor não quer apenas controlar a Branca. Jonathan não quer apenas levá-la de volta. E Ana... Ana talvez nunca tenha sido o que parecia.
Quando André termina, o silêncio pesa por alguns segundos.
Eu me apoio na mesa, de frente para ele.
"Sua mãe realmente acredita que a única saída é fugir?"
"Acredita." Ele passa a mão na nuca, irritado. "E, pelo que ela contou, eu entendo por quê. Ela viveu anos sendo paga para se manter invisível. Aquilo destruiu a cabeça dela."
Assinto devagar.
"Mas isso não vai acontecer."
Ele ergue os olhos para mim.
"Você já pensou em alguma coisa."
Não é uma pergunta. É uma constatação.
Eu puxo a cadeira, sento e aponto para a outra à minha frente.
"Senta. Porque, a partir de agora, a gente vai parar de apagar incêndio e começar a montar uma defesa."
André se senta sem discutir, o corpo inteiro ainda tenso, mas os olhos já mais atentos. É disso que eu preciso. De um homem ferido o suficiente para lutar, mas lúcido o bastante para não errar o alvo.
Pego um bloco que estava sobre a mesa e uma caneta. Não porque eu precise escrever para pensar, mas porque homens como Jonathan vencem quando conseguem transformar medo em caos. E eu não vou deixar que isso aconteça dentro desta casa.
"Vamos dividir isso em frentes", digo. "Proteção. Jurídico. Movimento deles. E vulnerabilidades."
André observa em silêncio enquanto eu escrevo os títulos.
"Primeiro: proteção."
Olho para ele.
"Ana pode até ter ajudado antes, mas isso não significa lealdade. Significa interesse. E interesse muda de lado rápido demais em famílias como a dela." André fala avaliando o todo. Ele passa a mão pelo queixo, pensando. "Minha mãe disse que Ana é a pior deles."
"Talvez seja." Dou de ombros. "Ou talvez seja a mais inteligente. O que, no fim, dá quase na mesma coisa."
André solta uma risada sem humor.
"Ótimo. Então temos um ex-marido psicopata, um avô manipulador e uma herdeira calculista."
"Tem mais."
Volto a escrever.
"Movimento deles."
Ergo o olhar.
"Eles estão acelerando. Isso significa que perderam alguma margem. Ninguém força tanto quando está confortável. Jonathan foi solto cedo demais, Victor apareceu cedo demais, Ana se expôs cedo demais. Isso me diz que ou eles estão com medo de perder a Branca em definitivo..."
"Ou de perder dinheiro."
André completa.
Assinto.
"Exato. Então precisamos descobrir onde essa estrutura é mais frágil. Patrimônio, imagem, sucessão, influência, qualquer coisa."
Ele se inclina para frente.
"Você quer cavar os Krieger."
"Eu quero encontrar a rachadura." Minha voz sai calma. "Toda família poderosa tem uma. Às vezes é financeira. Às vezes é política. Às vezes é moral. E, quando a gente acha, não precisa derrubar a casa inteira. Basta acertar a coluna."

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