Entrar Via

Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 192

Laís

Eu nunca vi tanto sangue.

Mesmo depois de tudo o que já vivi dentro de fóruns, delegacias, corredores de hospital, salas de audiências, nada me preparou para a visão do André caindo na minha frente com o ombro ensanguentado porque a bala que era para mim atravessou primeiro o corpo dele.

Tudo depois disso acontece rápido demais e lento demais ao mesmo tempo.

Alguém chama a ambulância.

Alguém grita por socorro.

Alguém corre atrás do homem.

E eu só consigo me ajoelhar no chão daquela sala, com as mãos sujas de sangue, pressionando o ferimento dele enquanto repito o nome dele como uma oração desesperada, como se manter meus olhos nos olhos dele fosse o suficiente para impedir o pior.

"Olha pra mim… André, olha pra mim…"

Eu nem sei se estou chorando ou gritando. Talvez os dois.

Talvez eu esteja desmoronando sem perceber.

Quando os paramédicos chegam, eu me afasto só porque me obrigam. Vejo abrirem espaço, vejo as mãos rápidas, os equipamentos, ouço palavras técnicas que entram por um ouvido e saem pelo outro, porque nenhuma delas importa mais do que uma só: ele está respirando?

É tudo o que eu quero saber.

E ninguém me responde direito.

No caminho até o hospital, eu vou na ambulância com ele. Não sei quem pegou minha bolsa. Não sei quem avisou alguém. Não sei quem ficou no escritório resolvendo a cena do crime. Nada disso importa. Só importa o som do monitor, o movimento do peito dele, a equipe tentando estabilizá-lo, e eu sentada num canto minúsculo, trêmula, com as mãos cobertas do sangue do homem que se jogou na frente de uma bala por minha causa.

Era para ser eu.

Essa frase não sai da minha cabeça.

Era para ser eu.

Quando chegamos ao hospital, levam André direto para o centro cirúrgico. Um médico me faz perguntas. Uma enfermeira tenta me sentar. Alguém limpa minhas mãos. Outra pessoa pergunta se fui atingida. Outra quer saber meu nome.

Laís.

Meu nome é Laís.

Mas por alguns minutos eu quase esqueço disso.

Só sei responder uma coisa:

"O homem que entrou comigo. Eu preciso saber como ele está."

Eles dizem que estão fazendo o possível.

Essa frase devia ser proibida em hospital.

Eu estou sentada na cadeira da recepção da emergência quando vejo a porta abrir de novo e Branca entrar praticamente correndo, seguida pelo Cássio, por dois seguranças e, alguns passos atrás, Tamara com a Aelyn no colo. Não, não. Aelyn não está ali. Meu cérebro bagunçado tenta entender. Não. Tamara veio, mas sem a menina. Graças a Deus.

Branca me vê.

E tudo o que eu estava segurando se rompe.

Eu me levanto tão rápido que quase tropeço.

Ela corre até mim.

"Cadê ele? Onde está o André? O que aconteceu?" A voz dela já vem quebrada, desesperada, e eu não consigo nem organizar uma resposta decente antes de me jogar nos braços dela.

"Ele me salvou."

As palavras saem afogadas em choro.

"Branca… ele se jogou na minha frente."

Sinto o corpo dela endurecer.

"Era para ser eu", continuo, soluçando, mal conseguindo respirar direito. "A arma estava apontada para mim. Era para ser eu."

Cássio chega perto no mesmo instante, segurando os ombros da noiva e tentando manter alguma ordem naquele caos.

"Quem foi?", ele pergunta.

Eu balanço a cabeça, tentando limpar o rosto sem sucesso.

"Um homem do Jonathan. Foi o que o André dissem eu não o conheço. Mas tem câmeras na sala de reunião..."

A mandíbula dele trava.

Branca segura meu rosto entre as mãos, me obrigando a olhar para ela.

"Você está machucada?"

Eu nego.

"Não. Ele…" Minha voz falha de novo. "Ele pulou na frente."

Os olhos dela se enchem de água na mesma hora.

Atrás deles, os seguranças já falam com a recepção, tentam puxar imagens, nomes, horários, qualquer detalhe que ajude a reconstruir o ataque. O hospital inteiro parece ter ficado pequeno demais de repente. Gente entrando e saindo. Enfermeiras passando rápido. Macas cruzando o corredor. Um telefone tocando ao longe. O ar frio demais.

E nenhuma informação.

Nenhuma.

Minutos depois, vejo outra figura surgindo pelo corredor com a pressa desajeitada de quem correu mais do que o próprio corpo aguenta.

Um médico sai. Todo mundo se levanta ao mesmo tempo. Meu coração sobe para a garganta.

"Família de André Bayron?"

"Sou a mãe."

Vânia responde primeiro, já se adiantando, e eu odeio o fato de que isso me faz recuar um passo, mesmo sendo eu quem deveria estar mais perto.

O médico tira a máscara do rosto e olha para todos nós.

"Ele está fora de perigo."

Por um segundo, ninguém reage. Como se a frase fosse boa demais para entrar.

Então o ar volta aos meus pulmões de forma tão brusca que quase me faz cair. Eu levo a mão à boca e começo a chorar de novo, mas agora de um jeito mais fraco, mais desmanchado, como se meu corpo estivesse largando o medo aos poucos sem saber o que fazer depois dele.

"O tiro atingiu a região do ombro", o médico continua. "Houve bastante perda de sangue, mas conseguimos controlar. Ele vai ficar em observação, sedado por algum tempo, mas não corre risco de morte neste momento."

Branca fecha os olhos, aliviada, e se apoia em Cássio por um instante. Até Vânia leva a mão ao peito, quase cambaleando de tanto drama e alívio misturados.

Eu dou um passo à frente.

"Eu posso vê-lo?"

Minha voz sai baixa, implorando, mas Vânia se interpõe antes mesmo de o médico responder.

"Não."

Eu olho para ela, sem entender por um segundo.

"Eu sou a mãe dele", ela diz, erguendo o queixo como se isso encerrasse qualquer disputa. "Sou eu quem vai entrar."

O médico, desconfortável, apenas observa.

"Por favor", eu tento de novo, olhando para ele, não para ela. "Só um minuto. Eu só quero ver se ele..."

"Você já fez demais."

A frase de Vânia vem cortante.

"Meu filho está naquela cama por sua causa. Então tenha o mínimo de decência e me deixe passar."

Eu fico imóvel. Sem voz. Sem reação.

Porque a culpa já estava me esmagando. E agora, ouvida em voz alta daquele jeito, ela parece ganhar ainda mais força.

"Faça um favor para nós. Vá embora." ela diz já seguindo o médico, e Branca me segura.

"Ignore-a. André te quer aqui. Ele vai chamar por você."

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz