Jonathan
O silêncio do escritório é confortável. A mesa à minha frente está limpa, organizada, cada papel no lugar certo, cada detalhe sob controle. Diferente das pessoas. Pessoas são imprevisíveis. Escapam. Erram. Sentem. Se desesperam.
E é exatamente por isso que eu sempre venço. E é por isso que logo a Branca vai estar aos meus pés de novo, fazendo tudo que eu quero apenas para manter aqueles que ela ama vivos.
Estou passando os olhos por alguns relatórios quando a porta se abre com força. Não preciso levantar a cabeça para saber quem é. Só uma pessoa entra no meu espaço sem pedir.
E com esse nível de irritação.
"Você enlouqueceu?" A voz da Emily corta o ambiente. Levanto os olhos devagar.
Ela está parada à minha frente, respiração pesada, olhos acesos de raiva. Não é uma raiva bonita. Não é controlada. É o tipo de raiva que denuncia envolvimento demais.
Erro básico. Eu sorrio de lado.
"Bom te ver também, promotora."
"Não brinca comigo, Jonathan." Ela avança um passo. "Você mandou matar o André?"
Eu apoio as costas na cadeira, cruzo os braços e deixo o silêncio se alongar por um segundo. Só para ver até onde ela aguenta.
E não, ela não aguenta muito.
"Você ficou completamente louco?"
Dou uma risada baixa.
"Não." Inclino a cabeça levemente. "Eu mandei matar a Laís. Como você queria." Os olhos dela vacilam. "Não posso fazer nada", continuo, tranquilo, "se o herói resolveu se jogar na frente e salvar a mocinha."
"Ele não pode ter feito isso."
"Mas fez. Ele realmente escolheu alguém."
"Não. Você está mentindo pra mim. Você ultrapassou todos os limites."
Agora ela está gritando. De verdade.
Eu me inclino para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
"Limites?" arqueio a sobrancelha. "Você veio me procurar para tirar um homem da cadeia, manipular provas e destruir a vida de duas pessoas… e agora quer discutir limites comigo?"
Ela fecha a mão com força.
"Não distorce as coisas."
"Eu não preciso distorcer nada." Minha voz baixa um tom, mais fria. "Eu só preciso lembrar você de quem você é quando está na minha frente. Não tem promotoria alguma aqui que te proteja, Emily, e se eu soltar os seus deliciosos pedidos, tenho certeza de que não vai haver no mundo lá fora também."
Ela se aproxima mais, como um tigre, pronto para atacar.
"Nunca mais faça isso. Nunca mais atente contra a vida dele. Seu homem deveria saber disso." A frase sai em dentes cerrados.
"Agora você está me dando ordens?"
"Estou estabelecendo condições." Ela segura o olhar. "O André não faz parte disso."
Eu solto uma risada mais aberta dessa vez.
"E você acha que tem esse tipo de poder aqui dentro?"
Minha expressão não muda.
"Eu não te ajudo mais." A voz dela é firme agora. "Não te ajudo a trazer a Branca de volta. Não te ajudo em nada."
Eu paro na frente dela. Perto o suficiente para que ela sinta a diferença entre quem está ameaçando… e quem está no controle, então sorrio.
"Depois que você faz um acordo comigo, promotora…" Minha voz sai baixa. "...não tem como desfazer."
Ela não recua.
"Você não manda em mim", ela diz.
Eu inclino a cabeça.
"Não preciso mandar."
Passo por ela devagar, voltando para minha cadeira, como se a conversa já estivesse encerrada.
"Você quer ele." Sento. "Eu quero a Branca." Pego um dos papéis da mesa, mas não leio. "Enquanto nossos interesses coincidirem… você continua aqui." A encaro novamente. "Depois disso? Você vira só mais um problema." Ela respira fundo, tentando decidir se continua, se ameaça, se recua. No fim, faz a única coisa inteligente possível naquele momento.
Fica em silêncio.
Eu sorrio de novo.
Por que isso? Isso é aceitação.
"Agora vai lá", digo, quase entediado. "Seu herói está no hospital. Vá cuidar dele." Inclino a cabeça, observando cada reação. "Ou deixe que a nova esposa ocupe ainda mais espaço do que ela já tem."
Ela se vira e sai e sorrio sabendo que logo ela também será carta fora do baralho.

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