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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 21

Branca Oliveira

Percebi que ele estava ali antes mesmo de ouvir qualquer som.

Foi aquele silêncio diferente. Mais denso. Como se o ar tivesse mudado de peso.

Limpei o rosto rápido com as costas da mão, enxugando as lágrimas antes que ele pudesse ver. Virei o rosto, tentando fingir que nada estava acontecendo.

Não funcionou.

A porta do closet se abriu e se fechou logo em seguida, com um clique baixo, definitivo.

“Pode sair”, falei sem olhar para ele. A voz saiu firme por puro esforço. “Agora.”

“Não vou”, ele respondeu.

Ri. Um riso curto, sem humor.

"Nós precisamos conversar sobre o que eu fiz."

“Foda-se o que você fez. Eu não tenho mais nada para falar com você”, falei, finalmente encarando-o. “Vai falar de novo que eu… que eu…” A voz falhou, mas antes que eu terminasse, ele me interrompeu.

Cássio deu um passo à frente e estendeu a mão para mim.

“Eu falei merda”, disse, direto. “Eu sei. Me desculpa de novo.”

Aquilo me desarmou mais do que qualquer grito.

“Agora eu entendi o que você quis dizer quando falou que perdeu seu filho.”

Meu corpo inteiro enrijeceu.

“Não”, falei de imediato. “Nunca mais fale dele.” Bati na mão estendida dele com força. “Você não me conhece. Não sabe nada da minha vida. Não sabe o que eu vivi. Não conhece o Pedro.”

Me levantei, pronta para sair dali, mas ele me segurou pelo braço e me puxou para perto.

Antes que eu pudesse reagir de verdade, ele me envolveu num abraço firme.

Tentei resistir no começo. Empurrei seu peito, bati com as mãos fechadas, querendo distância. Mas meu corpo traiu minha vontade e desabei.

Só Deus sabe o quanto eu queria um abraço agora. Qualquer abraço. De qualquer um.

Chorei de um jeito feio, descontrolado, sem dignidade nenhuma. O choro que eu segurava há tempo demais. Ele apertou os braços ao meu redor, sustentando meu peso, como se tivesse entendido que eu não estava apenas triste. Eu estava destruída.

“Nenhum pai… nenhuma mãe merece essa dor”, ele disse baixo, perto do meu cabelo. “Eu sinto muito. De verdade.” Sua voz falhou pela primeira vez. “Você pode me pedir o que quiser. Qualquer coisa. Pra tentar reparar o que eu disse.”

Aquilo só me fez chorar mais.

“Eu te avisei, juiz”, sussurrei entre soluços. “Você não podia fazer esse milagre. Não podia…” Minha voz sumiu. “Ele se foi. Ele me deixou...”

Os braços dele apertaram ainda mais ao meu redor.

“Quase isso.”

Dei uma risada curta.

“Isso não faz o menor sentido, senhor juiz.”

Ele sustentou meu olhar.

“Eu nunca disse que fazia.” Fez uma pausa. “Vamos começar de novo. Essa guerra entre a gente não faz bem pra Aelyn, nem para a gente. Não quero que minha casa se torne um campo de guerra. Para isso já me basta o meu trabalho.”

Assenti devagar.

“Tudo bem”, concordei. “Mas nada muda entre nós.” Passei por ele em direção a porta. “Eu ainda te acho um babaca.”

Ele soltou um suspiro que quase parecia um riso.

Encarei a menina por alguns segundos e ela dormia tranquilamente, mas sem o suor da outra noite. Vi quando Cássio passou pelo quarto e nos analisou, seguindo para o seu quarto em seguida.

Me deitei na cama ao lado da de Aelyn, ajeitei o cobertor e fiquei ali, olhando para o teto, deixando a respiração se acalmar. O coração ainda doía, mas já não batia em desespero. Batia cansado. Ferido. Porém… inteiro.

Pensar em Pedro ainda rasgava algo dentro de mim, isso nunca deixaria de existir. Mas, pela primeira vez, minha mente conseguia aceitar o que meu coração se recusava: ele não estava sofrendo. Não estava com dor. Não estava com medo.

Onde quer que estivesse, estava em paz.

E talvez… só talvez… eu pudesse aprender a ficar também.

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