Cássio
O silêncio que fica depois que André sai da sala não é apenas pesado… é estranho. Como se tudo tivesse sido arrancado de uma vez só, deixando o espaço vazio demais, grande demais, difícil de sustentar.
Eu passo a mão pelo rosto, tentando organizar as coisas na cabeça, mas não adianta. Nem eu, que sempre consigo colocar ordem no caos, estou conseguindo absorver tudo de uma vez. Meu olhar vai direto para a Branca, e o que vejo me tira daquele torpor imediatamente.
Ela não está bem.
O rosto pálido, os olhos perdidos, a respiração irregular… como se o corpo dela estivesse tentando acompanhar algo que a mente ainda não conseguiu processar.
"Ei…"
Eu me aproximo rápido, colocando a mão no braço dela.
"Senta."
Ela não reage de imediato, mas eu não espero. Seguro com cuidado e a conduzo até o sofá, ajudando-a a se acomodar, mantendo minha mão firme sobre a dela.
"Respira", digo, mais baixo. "Devagar."
Ela tenta.
Mas eu vejo o esforço.
E isso me preocupa mais.
Eu me levanto apenas o suficiente para olhar para a Emily novamente, voltando ao que ainda precisa ser resolvido.
"Eu vou mandar metade do dinheiro pra você", digo, direto, sem rodeios. "Assim que confirmarmos que suas informações são verdadeiras… você recebe o restante."
Mas ela não reage.
Fica parada.
Como se ainda estivesse presa no que aconteceu.
Ou no que perdeu.
O olhar dela vagueia pela sala, parando na Branca, depois na Vânia, como se estivesse procurando alguma coisa ali. Algum tipo de apoio, talvez. Algum resquício do que um dia existiu.
Mas não tem.
Não sobrou nada.
Eu estreito os olhos.
"Você está me ouvindo?" Ela pisca, como se voltasse agora. "Vai embora", continuo. "Você já fez estrago suficiente pra uma vida inteira."
Ela me encara, os olhos cheios, mas não com força… com algo mais próximo de derrota.
"Eu não queria que fosse assim", ela diz, a voz baixa. "Eu achei que estava fazendo o melhor."
Eu bufo, sem paciência nenhuma para aquilo.
"O melhor teria sido o André nunca ter te conhecido."
As palavras saem duras.
E necessárias.
Ela não rebate.
Só segura a bolsa com mais força, como se fosse a única coisa que ainda a mantém de pé, e, antes de sair, olha novamente para a Branca… depois para a Vânia.
"Me desculpem", ela diz, quase num sussurro. "Eu era jovem… imatura… achei que estava fazendo o certo."
Ninguém responde.
E isso diz tudo.
Ela espera um segundo.
Mas não vem nada, então vai embora.
A porta se fecha e o silêncio volta.
Mas agora é diferente.
Mais definitivo.
Eu me viro imediatamente para a Branca, me abaixando na frente dela, ficando na altura do olhar dela, colocando a mão sobre o joelho dela com cuidado, trazendo ela de volta para mim.
"Ei…"
Minha voz sai mais suave agora.
"Você precisa se acalmar."
Ela me olha, os olhos chorosos, ainda tentando processar.
"Cuidado com a nossa bebê", acrescento, levando a mão até a barriga dela por um segundo. "Ela precisa de você."
Branca estende a mão para ela, segurando com cuidado.
"Mãe…"
Mas ela não responde de imediato.
Só aperta a mão da filha.
"Vocês não têm culpa de nada."
Minha voz sai firme, cortando aquele ciclo antes que ele afunde mais.
As duas me olham.
"E isso não muda o que a gente vai fazer agora."
Eu me levanto devagar, mantendo a atenção nelas.
"A gente vai encontrar esse garoto e trazê-lo de volta para a família dele."
A frase não é promessa vazia. É decisão.
Eu chamo a Tamara, pedindo que traga água com açúcar, e enquanto ela sai, volto minha atenção para a Branca, que ainda me observa com os olhos cheios de algo entre dor e esperança.
"Promete?"
A pergunta dela me atinge direto.
"Promete que vai me ajudar a encontrar meu sobrinho?"
Eu não hesito.
"Eu prometo."
Me abaixo novamente na frente dela, segurando a mão dela com mais firmeza agora.
"Nós vamos encontrar ele."
E dessa vez… não é só uma tentativa de acalmar.
É o começo de algo.
"Amanhã", continuo, olhando entre ela e a Vânia, "a gente começa."

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