Branca
A casa está silenciosa demais. E, pela primeira vez desde que tudo começou, não é um silêncio de paz. É pesado, cheio de pensamentos que ninguém quer dizer em voz alta. Eu observo minha mãe sentada no sofá, os olhos perdidos em algum ponto que não está ali, e sinto um aperto no peito antes mesmo de ela falar.
"Eu devia ter escutado ele."
A voz sai baixa. Cansada. Me aproximo devagar e sento ao lado dela.
"Mãe…"
"Não. Não tenta aliviar isso. Eu sei exatamente onde eu errei."
Eu suspiro, mas fico em silêncio. Porque dessa vez ela não está fugindo. Ela está encarando. E isso é diferente de tudo que eu já vi nela.
"Eu passei anos defendendo aquela mulher. Fechando os olhos pra tudo que vocês tentavam me mostrar, achando que estava protegendo meu filho. Querendo fazer ele acertar no futuro dele. Voltar com uma pessoa que eu achava ser boa."
Ela solta uma risada fraca. Amarga.
"E olha o que ela fez."
Seguro a mão dela com força.
"Isso não é culpa sua."
Ela vira o rosto na minha direção. O olhar é pesado. Direto.
"É sim. Eu tentei amenizar tudo o que ela fez, porque lembro o quanto o André a amava. Eu tentei fazer ele voltar para ela, porque ele parou de sorrir depois que ela se foi..."
O silêncio que vem depois disso não é confortável. Mas é necessário. Ela precisa dizer isso. E eu preciso deixar.
"Agora eu vejo. Vejo a diferença. Vejo como a Laís cuida dele, como ela pensa nele o tempo todo. Ela poderia ter ido embora quando descobriu tudo isso. Poderia ter dito que não era problema dela."
Ela engole seco antes de continuar.
"Mas não. Ela ficou. Cuidou dele. Manteve-o inteiro. E ainda saiu na frente resolvendo tudo, enquanto ele nem conseguia pensar direito. Ela o amou acima de qualquer coisa que estivesse acontecendo."
A voz falha no final. Aperto a mão dela de volta.
"A Laís foi a melhor coisa que aconteceu na vida do André."
Não hesito. Porque é verdade e eu sei disso há muito tempo.
"Ele está diferente. Mais leve, mais feliz. Ainda carrega muita coisa, mas não é mais aquele homem quebrado de antes. As escolhas dele foram ruins, sim. Mas isso não define quem ele é."
Minha mãe me observa em silêncio por alguns segundos. Então segura minha mão com mais força. Quando fala, a voz vem mais baixa. Mais pesada.
"Eu errei com você também."
A frase chega como um golpe. Viro o rosto na direção dela, surpresa.
"E o nosso Pedrinho também está. Dentro dos nossos corações."
Fecho os olhos por um segundo. E concordo. Porque ele está. Sempre esteve. Sempre vai estar.
O som da porta se abrindo corta o momento. Levanto o olhar a tempo de ver o Cássio entrando, o rosto sério, mas não tenso. Só atento.
"Eles chegaram. Já foram direto pro laboratório. O André já fez a coleta."
Meu coração acelera.
"E o orfanato?"
"Ainda não foi autorizado o acesso. Mas eles vão ficar na cidade até tudo se resolver. Ele tem certeza que o garoto que a diretora comentou é o filho dele."
Troco um olhar com minha mãe. E as duas entendemos ao mesmo tempo, sem precisar falar.
"André não vai mais tolerar ser enganado pela Emily. Ele vai até o fim do mundo para descobrir o que aconteceu com o garoto."
Minha mãe aperta minha mão.
"Tomara que seja rápido."
Concordo com a cabeça. Mas no fundo eu sei. Algumas respostas demoram. Custam. Pesam. Mas quando chegam, mudam tudo.

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