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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 227

André

Eu nunca imaginei que um simples sorvete pudesse significar tanto. A gente saiu do orfanato como se estivesse atravessando uma linha invisível entre duas vidas completamente diferentes, e mesmo assim eu caminho devagar, respeitando cada passo dele, cada pequena adaptação que ele precisa fazer. A bengala toca o chão com precisão, mas eu não solto a mão dele, como se aquele contato fosse a única coisa que me mantém inteiro.

Laís está do outro lado, atenta, silenciosa, ajustando o ritmo sempre que percebe qualquer hesitação, qualquer detalhe que possa passar despercebido. Nós dois estamos aprendendo ao mesmo tempo, tentando não invadir, mas também não deixar faltar, tentando acertar o equilíbrio entre cuidado e liberdade.

Quando chegamos à sorveteria, eu paro por um instante e digo a ele.

"Chegamos à sorveteria. Até que é bem perto do orfanato." Ele sorri leve, como se aquilo fosse suficiente, e então inspira o ar ao redor.

"Tem cheiro doce", ele diz, e eu rio baixo, olhando para a Laís.

"Tem mesmo", ela responde. "E tem vários sabores. Você vai ter que escolher um. Ou dois, quem sabe..." Abro a porta e ele entra com ela. Vejo que ele sabe o que fazer, mas eu... eu tenho medo dele se machucar de alguma forma.

Ele pensa com calma, sem pressa, como se estivesse organizando tudo dentro da cabeça.

"Pode ser… chocolate."

"Claro." faço o pedido e os levo a mesa, me sentando ao lado dele.

"Está animado?" ele concorda com a cabeça.

"Eu tinha medo de não ter pra onde ir quando eu ficasse mais velho. Ninguém gosta de criança estragada." isso me doi.

"Você não é estragado. Você é especial e azar de quem não percebeu." Olho para Laís que concorda.

"Ainda bem, por que se não a gente não ia conseguir te trazer de volta." concordo.

"E eu tenho... mais parentes?" ele pergunta tímido.

"Sim, você tem uma tia maravilhosa, que está grávida de uma menininha. Tem uma priminha que se chama Aelyn e que tem quase 6 anos. E um primo que é nosso anjo da guarda e que tenho certeza que me ajudou a chegar até você. O Pedrinho." ele escuta com atenção cada detalhes.

"Tenho avô ou avó?" ele pergunta interessado.

"Tem sim, tem uma avó rabugenta, mas amorosa." ele dá risada e o sorvete dele chega. Enorme. Coloco as mãozinhas dele na colher e na taça para ele se localizar.

Ele dá a primeira colherada com cuidado, concentrado, e quando ele sorri de verdade… eu sinto algo apertar dentro do peito de um jeito que não dói, mas pesa.

"É bom?" pergunto.

"Muito", ele responde, simples, e aquilo vale mais do que qualquer outra coisa.

Ele come tudo lambendo os lábios e eu e Laís rimos. Então ela pede para que a gente se junte e tira uma foto.

"Vou mandar para a Branca, ela está me enchendo de perguntas aqui." concordo. "Vocês são iguaizinhos." ela fala e ele sorri ainda mais.

Eu fecho os olhos por um segundo, tentando segurar tudo que quer escapar.

"Eu volto", digo, firme. "Sempre vou voltar para você."

A gente desce, e eu caminho com ele até a entrada, cada passo sendo mais difícil do que o anterior, como se eu estivesse indo contra mim mesmo. A diretora já está ali, esperando, com aquele olhar compreensivo que agora só me incomoda mais.

Eu me abaixo na frente dele, segurando seu rosto com cuidado, precisando que ele me escute de perto. "Isso aqui é só por enquanto", digo, firme. "Não se preocupa, tá? Amanhã eu estou aqui, e todos os dias até você poder ir comigo."

Ele não responde com palavras.

Ele só me abraça.

E dessa vez… eu não consigo segurar.

Quando eu me levanto e ele solta minha mão para entrar, é como se arrancassem uma parte de mim ali, naquele momento. Eu fico parado por um segundo, olhando ele se afastar, sentindo um vazio que eu não sabia que podia existir.

E ali, em silêncio, eu faço uma promessa.

Isso nunca mais vai acontecer.

Nunca mais.

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