Cássio Ravelli
Eu fui direto para o escritório de André Bayron.
Não houve ligação. Não houve explicação. Apenas uma mensagem curta demais para o peso que carregava:
“Preciso que venha aqui. O mais rápido possível.”
Conhecia Bayron bem o suficiente para saber que, quando ele não falava por telefone, era porque as palavras não podiam ser ouvidas por qualquer pessoa, e não precisavam deixar rastros.
A recepcionista mal levantou a cabeça quando cheguei.
“O doutor Bayron está esperando. Pode entrar.”
Ele estava enterrado em papéis, a gravata frouxa, a manga da camisa dobrada, o escritório com aquele caos organizado típico de quem só dorme quando o corpo desiste.
“Você está atrasado”, disse, sem erguer os olhos.
Sorri de lado.
“Eu nunca me atraso.”
Foi então que ele levantou o rosto.
“Hoje, está.” Fez uma pausa. “Vinte minutos.”
Me sentei à frente dele, soltando os botões do blazer com calma estudada.
“Tive problemas em casa.”
Bayron arqueou a sobrancelha.
“Aelyn está bem?”
“Está.” Apoiei os cotovelos nos braços da cadeira. “O problema é a governanta e a babá nova. Duas mulheres fortes tentando sobreviver na mesma cozinha.” Fiz um meio sorriso. “Curiosamente… não está sendo tão desconfortável quanto antes.”
Ele me analisou por um segundo a mais do que o normal.
Levantou-se sem dizer nada, caminhou até o pequeno bar do escritório e serviu duas doses generosas de uísque.
Colocou um copo à minha frente.
“Acho melhor beber isso.”
Endireitei o corpo na cadeira.
“O que pode ser tão ruim assim?” Peguei o copo, mas não bebi. “Já te disse. Eu não fiz nada. Não comprei coração nenhum. Quem inventou isso é um lunático.”
Bayron voltou para a cadeira, agora sério demais para rodeios.
“Você me pediu para investigar a Branca Oliveira, certo?”
Assenti.
“Minha babá, sim. Mas ontem eu conversei com ela, acho que nem precisa mais...”
“Pois é. Agora precisamos sim.” Ele cruzou os dedos sobre a mesa. “Ela também aparece citada no processo.”
O copo parou no meio do caminho.
“Como é que é? ”
“Ela aparece ligada ao caso.” Respirou fundo. “Não como ré principal. Mas como peça-chave.”
Meu estômago se contraiu.
“Por quê? Que merda é essa, André?”
Bayron sustentou meu olhar.
“…é a mãe do coração que salvou a vida da Aelyn.”
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi devastador.
"Isso é impossível."
"Não, não é."
"E ela sabe disso?"
"Cássio, tem um comprovante anexado aqui de 200 mil dólares. A mulher está debaixo do seu teto. Que porra você fez?"
Me levantei ainda tonto com aquelas informações.
"Você e a Branca já se conheciam antes?"
"Ela sabe?" voltei a perguntar. "Me responde se ela sabe que o coração do filho dela, está no peito da minha filha."
"Pelos registros que vi, não. Ela não foi informada." mordi a boca ainda tentando entender tudo isso.
"O caso é pior do que você pensa. Se eles acharem que você comprou o coração e que está coagindo a mãe da criança, e tentando criar um vínculo com a sua filha... eu não sei o que pode acontecer."
"Eu não estou fazendo nada disso. Foi só uma coincidência."
"Você não acredita em coincidências, Ravelli."
"Mas pela primeira vez é verdade." voltei a olhar para ele. "Não fizemos nada. Ela é uma vítima, e minha filha recebeu o coração por que foi compatível. Só falta vocês acharem que eu causei a porra do acidente que matou o garoto."
"Podem alegar isso. Tem alguns áudios aqui onde você diz que faria qualquer coisa para salvar Aelyn."
"Eu nunca mataria ninguém por isso." falei surtando. "Que mente doente é essa?"
"Você tem muitos inimigos, Ravelli. Um conseguiu achar uma brecha para te atingir."

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