Cássio
A cozinha estava com aquela bagunça boa de fim de tarde, copos pela bancada, a Vânia mexendo em alguma coisa no fogão, o cheiro de comida tomando conta do andar de baixo e eu fiquei parado na entrada por um segundo só observando, antes de qualquer um perceber que eu estava ali.
A Aelyn estava sentada na bancada, os pés balançando no ar, falando sem parar como ela sempre faz quando está animada de verdade. Branca estava do outro lado, apoiada na pia, sorrindo daquele jeito que ela tem quando está bem, não o sorriso de educação, o outro, o verdadeiro, o que aparece nos olhos antes da boca.
"Mas você não entende", a Aelyn disse, gesticulando com a seriedade de quem está explicando algo urgente. "Antes era só eu e o pai. Só nós dois. Aí veio a mamãe..."
"Adoro quando me chama de mamãe", Branca comentou.
"E aí ficou melhor." Aelyn sorriu para minha mulher. "E agora tem o tio André e a tia Laís, e o Felipe, e a vovó, e a Serena que ainda vai chegar..." Ela abriu os braços como se estivesse medindo o tamanho de uma coisa enorme. "A família tá crescendo muito. Tá muito mais legal..."
Eu me aproximei devagar, parando atrás da Branca, pondo a mão na cintura dela.
"Está", concordei, e a Aelyn me encarou como se eu tivesse chegado na hora exata certa.
"Papai, você concorda comigo, né? Que está melhor assim?"
"Muito melhor."
Ela acenou com a cabeça, satisfeita, como se o caso estivesse encerrado.
"E a Serena vai brincar com o Felipe também", ela continuou, pensativa agora, num tom levemente mais sério. "Eu vou ensinar ela a ser cuidadosa, porque ele enxerga diferente, e a gente tem que respeitar isso." Ela para pensando um pouco sobre isso. "Eu já aprendi. Já sei como ajudar ele..."
Branca se virou levemente na minha direção, e eu vi no olhar dela o mesmo que eu estava sentindo.
"Você já aprendeu", ela confirmou, a voz um pouco mais suave.
"É porque eu sou muito esperta e porque perguntei pra ele também."
Eu ri, e a Vânia do fogão riu junto sem nem se virar.
A Aelyn desceu da bancada com aquela energia que não diminui nunca, anunciando que ia ver o que o Felipe e a Laís estavam fazendo lá em cima, e sumiu pelo corredor antes que alguém respondesse.
O silêncio que ficou era diferente, mais tranquilo, mais espaçoso.
Branca ficou quieta por um momento, os dedos traçando distraidamente a borda da bancada.
"Vou ver se a Tamara precisa de ajuda com a mesa do jantar", a Vânia disse de repente, com aquele jeito dela de perceber mesmo sem dizer. Depois que a conhece, a gente começa a entender o jeito dela. Não quer dizer que eu aprove, mas... está menos ruim a convivência com a mãe da Branca.
Esperamos até ouvir os passos dela saindo.
"Você acredita que a Emily ligou para o André?", Branca falou assim que a mãe saiu, mais baixa, virando o rosto na minha direção. "Acredita que ela teve a capacidade de pedir mais ajuda?"
"Então pronto, vamos esquecer essa mulher e esse assunto." Mas minha mente já estava pronta para alertar o pessoal da segurança sobre isso.
Foi quando o celular vibrou no meu bolso.
Puxei, olhei para a mensagem, e senti o estômago mudar de lugar.
"O que foi?", Branca perguntou, lendo minha expressão antes de eu falar.
Eu olhei pra ela por um segundo, depois de volta para a tela.
"Uma mulher foi vista sendo arrastada de dentro de um hotel nas margens da cidade." Parei processando ainda. "A descrição b**e com a Emily."
Branca ficou completamente imóvel.
O barulho lá de cima continuava, passos, a voz da Aelyn, alguma coisa que fez o Felipe rir e a casa seguia aquecida, cheia, inteira.
Mas alguma coisa tinha mudado no ar da cozinha.
E nenhum dos dois sabia ainda o que fazer com isso.

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