Branca
O dia tinha sido bom.
Daquele jeito simples e cheio que às vezes aparece sem avisar, sem planejamento, sem motivo específico, só as horas passando com leveza. A Laís tinha ficado comigo enquanto os homens saíam para resolver as coisas deles, e a gente tinha passado a manhã na cozinha com as crianças, fazendo panqueca com a Aelyn ensinando o Felipe a sentir quando a massa estava no ponto certo pelo cheiro.
"Assim", ela dizia, séria, guiando a mão dele sobre a tigela. "Quando cheira a baunilha forte é porque tá pronto."
Ele cheirou com atenção.
"Cheira a ovo."
"É porque você cheirou errado."
A Laís e eu trocamos um olhar e seguramos o riso ao mesmo tempo.
A tarde foi mais tranquila, as crianças foram para o quarto, a Laís ficou lendo no sofá enquanto eu dobrava roupas que comprei para a Serena, e a casa foi entrando naquele ritmo morno de fim de tarde que eu tinha aprendido a gostar. A barriga estava começando a ficar redondinha, e em algum momento sentei na poltrona e fiquei só ouvindo os sons da casa por alguns minutos, sem pensar em nada específico.
Serena.
Logo você vai estar aqui, eu pensei, passando a mão na barriga. E vai ter tanto amor esperando por você que vai ser impossível não sentir.
"Você está ansiosa?" Laís me questionou e percebi que ela estava assistindo a cena.
"Um pouco. É diferente... não sei como explicar." olhei para a barriga de novo. "Quando eu estava grávida do Pedro, o Jonathan só perguntava se estava tudo bem, e mais nada. Ele só queria um herdeiro, mas não queria o desafio que isso significava, e com Cássio é diferente."
Ela me olhou com atenção e se inclinou.
"Ele quer você e a bebê. Ele quer tudo que a família representa." Concordei.
"Ele quer saber cada detalhe, que beijar e abraçar a barria go tempo todo. Conversa com a Serena, contando coisas do dia, da rotina da Aelyn... ele é..."
"Ele é um pai de verdade." concordo sentindo meu coração se tornar mais leve.
"É bom te ver mais calma e feliz. Mesmo que ainda estejamos em pé de guerra com seu ex... você se encontrou." concordo.
Quando ouvi o carro do Cássio lá fora, me levantei com aquela animação boba de quem estava com saudade, mesmo sendo poucas horas. Fui até a cozinha ver o que tinha para o jantar, abri a geladeira, comecei a organizar mentalmente o que ia esquentar, já que a Tamara estava de folga.
"Acha que isso está bom?" Questionei para a Laís que concordou.
"Mas quer que eu pergunte para eles, o que vão querer jantar?" Laís me respondeu, mas Felipe a chamou no mesmo instante e ela saiu correndo para ver o que era.
Eu mesma fui saber o que eles queriam jantar, mas quando cheguei perto, ouvi as vozes mais baixas.
Reconheci a voz do Cássio e a do André, e normalmente eu teria batido na porta ou entrado de uma vez, mas alguma coisa me fez parar.
Me aproximei devagar, sem fazer barulho, e fiquei parada do lado de fora, a mão perto da maçaneta.
"...ainda é circunstancial, mas consistente demais para ignorar." Era a voz do Cássio. "Souza confirmou hoje. Ela está no radar como suspeita."
"Suspeita de quê exatamente?" André.
Uma pausa.
"Do acidente, André."
Silêncio.
"Espera." A voz do André saiu diferente, mais baixa. "Você está dizendo que a Ana..."
Eu ouvi tudo.
Fiquei parada no meio da sala, os braços caídos, ouvindo cada palavra com aquela clareza absurda que vem quando o choque ainda não chegou de verdade, quando você ainda está processando, quando o cérebro ainda está tentando encontrar o erro no que está ouvindo, a brecha, o mal entendido.
Mas não tinha brecha.
Tinha só a Ana.
A Ana que eu conhecia. Que era a tia do meu menino. A mulher que sempre foi acima de qualquer suspeita.
"Branca." A voz do Cássio chegou de longe. "Branca, olha pra mim."
Eu olhei.
E foi quando tudo veio de uma vez.
Não foi gradual, não foi em camadas, foi tudo junto, o velório e o caixão pequeno e o cheiro de flores. A dor que quase me consumiu naqueles dias. Se não fosse o homem a minha frente, eu teria me entregado.
Aquela mulher que deveria ter protegido o meu menino, era a mandante do acidente.
Agora eu não tinha meu pequeno. Ele nunca cresceria, nunca conheceria a irmã.
Meu filho.
Meu filho tinha morrido por causa do dinheiro.
As pernas cederam antes que eu percebesse.
Ouvi o Cássio gritar meu nome, ouvi os passos do André, senti as mãos chegando antes que o chão chegasse e então não senti mais nada.

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