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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 244

Branca

O dia tinha sido bom.

Daquele jeito simples e cheio que às vezes aparece sem avisar, sem planejamento, sem motivo específico, só as horas passando com leveza. A Laís tinha ficado comigo enquanto os homens saíam para resolver as coisas deles, e a gente tinha passado a manhã na cozinha com as crianças, fazendo panqueca com a Aelyn ensinando o Felipe a sentir quando a massa estava no ponto certo pelo cheiro.

"Assim", ela dizia, séria, guiando a mão dele sobre a tigela. "Quando cheira a baunilha forte é porque tá pronto."

Ele cheirou com atenção.

"Cheira a ovo."

"É porque você cheirou errado."

A Laís e eu trocamos um olhar e seguramos o riso ao mesmo tempo.

A tarde foi mais tranquila, as crianças foram para o quarto, a Laís ficou lendo no sofá enquanto eu dobrava roupas que comprei para a Serena, e a casa foi entrando naquele ritmo morno de fim de tarde que eu tinha aprendido a gostar. A barriga estava começando a ficar redondinha, e em algum momento sentei na poltrona e fiquei só ouvindo os sons da casa por alguns minutos, sem pensar em nada específico.

Serena.

Logo você vai estar aqui, eu pensei, passando a mão na barriga. E vai ter tanto amor esperando por você que vai ser impossível não sentir.

"Você está ansiosa?" Laís me questionou e percebi que ela estava assistindo a cena.

"Um pouco. É diferente... não sei como explicar." olhei para a barriga de novo. "Quando eu estava grávida do Pedro, o Jonathan só perguntava se estava tudo bem, e mais nada. Ele só queria um herdeiro, mas não queria o desafio que isso significava, e com Cássio é diferente."

Ela me olhou com atenção e se inclinou.

"Ele quer você e a bebê. Ele quer tudo que a família representa." Concordei.

"Ele quer saber cada detalhe, que beijar e abraçar a barria go tempo todo. Conversa com a Serena, contando coisas do dia, da rotina da Aelyn... ele é..."

"Ele é um pai de verdade." concordo sentindo meu coração se tornar mais leve.

"É bom te ver mais calma e feliz. Mesmo que ainda estejamos em pé de guerra com seu ex... você se encontrou." concordo.

Quando ouvi o carro do Cássio lá fora, me levantei com aquela animação boba de quem estava com saudade, mesmo sendo poucas horas. Fui até a cozinha ver o que tinha para o jantar, abri a geladeira, comecei a organizar mentalmente o que ia esquentar, já que a Tamara estava de folga.

"Acha que isso está bom?" Questionei para a Laís que concordou.

"Mas quer que eu pergunte para eles, o que vão querer jantar?" Laís me respondeu, mas Felipe a chamou no mesmo instante e ela saiu correndo para ver o que era.

Eu mesma fui saber o que eles queriam jantar, mas quando cheguei perto, ouvi as vozes mais baixas.

Reconheci a voz do Cássio e a do André, e normalmente eu teria batido na porta ou entrado de uma vez, mas alguma coisa me fez parar.

Me aproximei devagar, sem fazer barulho, e fiquei parada do lado de fora, a mão perto da maçaneta.

"...ainda é circunstancial, mas consistente demais para ignorar." Era a voz do Cássio. "Souza confirmou hoje. Ela está no radar como suspeita."

"Suspeita de quê exatamente?" André.

Uma pausa.

"Do acidente, André."

Silêncio.

"Espera." A voz do André saiu diferente, mais baixa. "Você está dizendo que a Ana..."

Eu ouvi tudo.

Fiquei parada no meio da sala, os braços caídos, ouvindo cada palavra com aquela clareza absurda que vem quando o choque ainda não chegou de verdade, quando você ainda está processando, quando o cérebro ainda está tentando encontrar o erro no que está ouvindo, a brecha, o mal entendido.

Mas não tinha brecha.

Tinha só a Ana.

A Ana que eu conhecia. Que era a tia do meu menino. A mulher que sempre foi acima de qualquer suspeita.

"Branca." A voz do Cássio chegou de longe. "Branca, olha pra mim."

Eu olhei.

E foi quando tudo veio de uma vez.

Não foi gradual, não foi em camadas, foi tudo junto, o velório e o caixão pequeno e o cheiro de flores. A dor que quase me consumiu naqueles dias. Se não fosse o homem a minha frente, eu teria me entregado.

Aquela mulher que deveria ter protegido o meu menino, era a mandante do acidente.

Agora eu não tinha meu pequeno. Ele nunca cresceria, nunca conheceria a irmã.

Meu filho.

Meu filho tinha morrido por causa do dinheiro.

As pernas cederam antes que eu percebesse.

Ouvi o Cássio gritar meu nome, ouvi os passos do André, senti as mãos chegando antes que o chão chegasse e então não senti mais nada.

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