André
O endereço que o Victor Krieger tinha me mandado não era o que eu esperava.
Não era um escritório, não era uma sede corporativa com recepcionista e sala de espera. Era uma casa, grande, antiga, daquele tipo que carrega décadas nas paredes, cercada por um jardim que alguém cuidava com atenção. O tipo de lugar que diz mais sobre um homem do que qualquer cartão de visita.
O portão abriu antes que eu tocasse a campainha.
Um homem me guiou até uma sala no andar de baixo. Entrei e percebi que era um local clássico, porém engessado. O típico lugar que deixa claro que ali é o território dele.
Victor Krieger estava de pé quando entrei.
Mais velho do que eu lembrava, mas com aquela postura que não pede desculpa pela idade, ombros retos, olhar direto, terno escuro como se fosse segunda natureza. Ele me avaliou em dois segundos, daquele jeito que algumas pessoas têm, rápido e completo, e então indicou a cadeira na frente da mesa.
"Senhor Bayron. Quanto tempo."
"Senhor Krieger." Me sentei. "Agradeço o tempo."
"Você disse que tinha informações sobre meus netos." A voz era exatamente o que eu esperava, controlada, sem inflexão desnecessária. "Então fale. Não tenho tempo a perder."
Sem rodeios Sem café, sem conversa inicial.
Abri a pasta na mesa.
"Gosto do seu jeito, então aqui está." Virei os primeiros documentos na direção dele. "Sua neta Ana encomendou o acidente que matou Pedro Krieger. Meu sobrinho."
O silêncio que veio depois foi diferente de todos os outros silêncios que eu já tinha vivido.
Victor Krieger não se moveu.
Ficou me olhando por um segundo que durou tempo demais, e então desceu o olhar para os papéis na mesa. Lentamente. Com aquele cuidado de quem está escolhendo o que fazer com a própria reação antes de ter a reação.
"Continue", ele disse.
Continuei.
Fui pelos documentos um por um, os registros de chamadas, o cruzamento financeiro, o pagamento fracionado, o laudo pericial relido com novos olhos. Expliquei cada conexão com a precisão de quem passou a madrugada preparando exatamente isso, antecipando cada questionamento, cada brecha que ele poderia usar para não acreditar.
Ele ouviu tudo sem me interromper.
Virou cada página com calma, leu, virou a próxima.
Só uma vez eu vi a mão dele parar por um segundo a mais sobre uma folha, o registro da movimentação financeira feita três dias antes do acidente. Só um segundo. Depois continuou.
Quando terminou, fechou a pasta devagar e colocou as mãos em cima dela.
"O Pedro era filho do Jonathan", ele disse, a voz igual, sem variação. "Meu primeiro bisneto legítimo." Uma pausa curta, quase imperceptível. "O pai do Jonathan e o pai da Branca eram meus filhos. Irmãos. O Pedro era o único neto que carregava os dois lados do meu sangue."
"Sim. Mas além disso, o Pedro era sobrinho da Ana. Era família. Ela viu ele nascer. Esteve presente em tudo. Como..." bufo cortando a frase.
"E com ele morto, e o Jonathan desacreditado ou preso..." Ele não terminou a frase. Não precisava.
"Ana ficaria com tudo", confirmei.
Outro silêncio.
Dessa vez mais longo.
"O Pedro tinha cinco anos quando morreu", ele disse por fim, e aquela frase carregava algo que o resto da conversa não tinha carregado, não era informação, era memória. "A última vez que eu o vi, foi com 1 ano, quando a Branca fugiu... nós o procuramos... mas... ela conseguiu se camuflar bem."
Não respondi.
Não era o momento de responder.
Eu sustentei o olhar.
"O Jonathan está foragido e armado. A Ana encomendou a morte do próprio sobrinho sem piscar." Pausei. "O senhor pode falar. Mas se o resultado de falar for mais tempo, mais espera, mais risco para a minha família, então eu e o juiz Ravelli vamos seguir sem precisar da cooperação do senhor. E o escândalo que o senhor quer evitar vai ser inevitável."
O silêncio dessa vez foi diferente.
Não era mais o silêncio de quem processa.
Era o de quem calcula.
Victor Krieger se levantou devagar, foi até a janela, ficou de costas para mim por alguns segundos olhando para o jardim lá fora. Eu fiquei parado, esperando, sem preencher o silêncio.
Quando ele se virou, havia algo diferente no rosto dele.
Não era derrota. Era decisão.
"Você vai ter sua solução", ele disse. "Tenho meios que o senhor não tem. E vou usá-los." Fez uma pausa. "Mas quero ser informado de cada passo que o juiz Ravelli e o delegado derem. Em troca, o que eu conseguir do meu lado, vocês saberão."
Me levantei.
Estendi a mão. e ele apertou.
Firme. Rápido. O tipo de aperto que fecha acordo sem precisar de papel.
"Pelo Pedro", eu disse.
Ele ficou me olhando por um segundo.
"Pelo Pedro", ele repetiu. "E pela Serena. Diga a Branca que quero me acertar com ela. Que, quando tudo isso acabar, eu quero me reaproximar."
E pela primeira vez desde que entrei naquela sala, a voz dele não estava completamente no lugar.

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