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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 249

Ana

O dia tinha começado normal.

Café na varanda, reunião às dez, agenda cheia do jeito que eu gostava, movimentada, produtiva, com aquela sensação de que tudo estava exatamente onde eu tinha colocado.

O primeiro sinal foi o cartão.

Na cafeteria perto do escritório, o mesmo lugar de sempre, o mesmo pedido de sempre. A atendente virou a maquininha com aquela expressão de quem não quer dar a notícia.

"Recusado, senhora."

Eu ri, achando que era erro do sistema.

Passei o outro.

Recusado.

"Ué, o que será que está acontecendo." A atendente me olhava como se fosse apenas um erro, mas na minha vida não existiam erros.

Paguei em dinheiro e saí sem mostrar que alguma coisa tinha mudado por dentro, e fui andando até o escritório com aquela velocidade de quem tem lugares para estar e não tem tempo para se preocupar com mal entendidos bancários.

O segundo sinal foi a porta.

O segurança da recepção, Marco, que me conhecia há quatro anos, que sempre abria o acesso antes que eu chegasse ao torniquete, ficou parado. Me olhou. E não abriu.

"Bom dia, senhora Krieger."

"Marco." Sorri, passando o crachá. "Algum problema?" olhei para o acesso fechado.

Ele parecia genuinamente desconfortável. "Recebi instrução de bloquear o seu acesso esta manhã, senhora. Sinto muito. Mas a senhora não pode entrar na empresa."

Eu fiquei parada.

"Instrução de quem?"

Ele não respondeu. Só me olhou com aquela expressão de quem está cumprindo ordem e não quer ser o mensageiro.

Tirei o celular, liguei para o diretor financeiro. Caixa postal. Liguei para a secretária da diretoria. Caixa postal. Liguei para o jurídico. Atendeu, ficou em silêncio por dois segundos quando ouviu meu nome, e disse que não podia falar no momento.

Fiquei na calçada na frente do prédio que meu avô tinha construído, com o café esfriando na mão e aquela sensação começando a crescer no peito, não era pânico, eu não entrava em pânico, era uma coisa mais fria, mais calculada, que dizia que alguma coisa estava muito errada e que eu precisava entender o quê antes que ficasse maior.

Liguei para o Victor.

Ele atendeu no segundo toque.

"Vovô." Coloquei o tom certo, preocupada, levemente perdida, a neta que precisava de ajuda. "Acho que fui hackeada. Meus cartões foram cancelados, me barraram na empresa, ninguém me atende. Você pode verificar o que está acontecendo?"

Uma pausa curta.

"Venha até aqui", ele disse. E desligou.

Procurei meu motorista e não achei, e então estendi minha mão para um taxi.

Que merda estava acontecendo naquele dia?

Assim que cheguei na casa do meu avô, algo me tranquilizou.

Desde pequena, aquele lugar tinha sido sinônimo de segurança. Eu tinha crescido sabendo que era a favorita. Não porque ele dissesse, mas porque eu via, nos presentes, na atenção, nas oportunidades que ele criava especificamente para mim enquanto o Jonathan e Branca eram deixados à própria sorte.

Entrei com aquela familiaridade de sempre, beijei o rosto dele, sentei na cadeira na frente da mesa.

"Vovô, não sei o que está acontecendo." Deixei a voz sair com aquela leveza preocupada que sempre funcionava. "Cheguei na empresa e Marco me barrou como se eu fosse uma estranha. Meus cartões estão todos bloqueados, meu acesso ao sistema foi cortado." Coloquei a mão sobre a dele na mesa. "Deve ser algum problema técnico, ou alguém tentando me prejudicar. O que eu devo fazer?"

Ele me olhou.

Só isso.

Não respondeu, não acenou, não fez nenhum daqueles gestos que ele sempre fazia quando estava prestes a resolver alguma coisa pra mim. Ficou me olhando com aquela expressão fechada que eu não sabia ler direito, e que eu não gostava de ver.

Então pegou uma pasta da mesa e jogou na minha frente.

Olhei para ela.

"O que é isso?"

"Abre." e assim o fiz.

As primeiras páginas não fizeram sentido imediato, registros, números, datas. Fui passando os olhos com aquela rapidez de quem está procurando o ponto principal, e então comecei a encontrar.

"Achei que era isso", ele disse, por fim.

"Então você entende..."

"Entendo que te criei errado." A voz era baixa, sem raiva, o que era pior do que qualquer explosão. "Se o dinheiro vale mais do que a vida de uma criança, eu errei completamente com você, Ana. Errei desde o começo."

"Vovô..."

"Você matou o Pedro." Ele falou o nome sem desviar o olhar. "Uma criança. Meu bisneto tinha cinco anos."

"Eu posso compensar." Me levantei, dei um passo na direção dele, coloquei tudo que tinha no tom de voz. "Me perdoa. Eu mudo, faço o que você quiser, posso até ter um filho para compensar o bisneto que o senhor perdeu, posso..."

"Essa frase." Ele me interrompeu com uma calma devastadora. "Essa frase já mostra que você não entendeu nada."

Abriu a boca para continuar, mas não continuou.

Olhou para os seguranças.

"Levem-na daqui." Uma pausa. "O delegado Souza já está aguardando na delegacia."

O chão sumiu debaixo dos meus pés.

"Delegacia?" Dei um passo para trás, involuntário. "Você vai me deixar ser presa? Eu sou sua neta, você não pode..."

Ele se virou.

Simplesmente se virou, foi em direção à janela, e colocou as mãos para trás como se a conversa tivesse encerrada.

"Vovô." A voz saiu diferente agora, sem o controle de antes, sem a camada calculada. "Vovô, olha pra mim. Por favor!" As mãos dos seguranças chegaram nos meus braços e eu me debati, tentando alcançar alguma coisa, qualquer coisa. "Você não pode fazer isso comigo, eu sou tudo que você tem, eu sou sua herdeira, eu sou..."

Ele não se virou.

Ficou de costas, olhando para o jardim lá fora, enquanto os seguranças me guiavam para fora da sala.

O último som que eu ouvi foi a porta fechando atrás de mim.

E o silêncio do outro lado.

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