Cássio Ravelli
Saí do escritório de Bayron com o sangue fervendo.
Não me despedi. Não organizei pensamento algum. Apenas caminhei até o carro como quem foge de uma explosão interna prestes a acontecer. Assim que fechei a porta, perdi o controle. Soquei o volante uma, duas, três vezes, sentindo a dor nos nós dos dedos como se fosse merecida.
“Como eu não vi isso?”, rosnei sozinho.
A imagem de Clara se misturava à de Branca, à de Aelyn, àquela pasta maldita sobre a mesa do Bayron. Tudo fazia sentido agora. E exatamente por isso era insuportável.
Liguei o carro e dirigi até o hospital como se aquilo fosse uma corrida contra o tempo.
Quando cheguei, fui direto ao setor de assistência social. Não pedi licença. Não expliquei nada. Apenas perguntei por Clara.
A mulher atrás da mesa me olhou com estranheza.
“Clara não trabalha mais aqui”, respondeu.
Meu maxilar travou.
“Como assim não trabalha mais aqui?”, questionei, a voz perigosamente controlada.
“Ela pediu demissão”, disse a mulher, ajeitando alguns papéis. “Foi tudo muito rápido. Assinou os documentos e saiu.”
“Quando?”
“Há alguns dias.”
Alguns dias.
O tempo exato para apagar rastros.
"Eu preciso falar com ela, sabe se ela mudou de telefone? O que eu tenho não está funcionando."
"Não tenho, senhor. Ela simplesmente saiu do hospital. Eu nem conversei com ela direito."
“E o endereço dela?”, perguntei. “Qualquer coisa que me ajude a encontrá-la."”
A mulher hesitou. Tempo demais.
“Não tenho acesso a esse tipo de informação”, respondeu, desviando o olhar.
Mentira.
Eu conhecia aquele tipo de mentira. Era a mesma que eu via todos os dias em audiências, quando alguém sabia mais do que dizia, mas não queria se comprometer.
“Tudo bem”, falei por fim, seco. “Obrigado.”
Saí dali com a certeza de que Clara tinha desaparecido antes mesmo de eu perceber que precisava procurá-la.
Do lado de fora do hospital, liguei para um contato antigo. Um favor que eu nunca quis dever, mas agora precisava cobrar.
“Preciso que você ache uma mulher”, disse assim que a ligação foi atendida. “Vou te mandar o nome por mensagem. Preciso dos últimos vínculos, possíveis saídas do país. É urgente.”
"Por que a pressa?"
Sentei ao lado dela e passei a mão em seus cabelos.
“Essa sua babá te mima demais." ela sorriu de lado.
"Ela gosta de mim, e sabe que eu não iria comer aquele negócio ruim." dei risada tendo certeza disso.
"E você?”, perguntei. “Está se sentindo melhor?”
Ela assentiu com entusiasmo.
“Não dói mais. E o moço que faz os exercícios comigo disse que logo eu vou poder correr de novo.” Os olhos brilharam. “Imagina, papai? Quanto tempo faz que eu não corro no jardim?”
Beijei sua testa com cuidado.
“Vai sim”, respondi. “Logo tudo vai voltar ao normal.”
As palavras saíram automáticas. Ensaiadas.
Não sabia dizer se falava para ela… ou para mim.
Enquanto a observava ali, viva, inteira, respirando com um coração que não nasceu com ela, mas agora batia por ela, uma certeza se instalou no fundo do meu peito, pesada e definitiva:
Eu não ia deixar aquela história destruir a minha filha.
Nem Branca.
Nem a memória de um menino que já tinha pago caro demais por erros que não foram dele.

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