Branca
Falar que eu consegui dormir aquela noite, era mentira. Eu não via a hora de ver a Ana ser condenada. De ver ela pagar por seus crimes, então assim que o celular despertou, eu me levantei e fiquei pronta, esperando apenas que o Cássio me levasse para o julgamento.
Mas para o meu azar, o julgamento estava atrasado.
Vinte minutos de espera na sala já preenchida, e eu fiquei sentada ao lado do Cássio observando meu avô, Victor Krieger do outro lado do corredor central. Ele estava na fileira da frente, de terno escuro, as mãos entrelaçadas no colo, olhando para frente com aquela expressão fechada que eu já tinha aprendido a ler, não era frieza, era contenção. O tipo de contenção que custa.
Ele sentiu meu olhar e virou o rosto.
Assentiu para mim como se isso fosse o máximo que ele conseguia naquele momento.
Eu assentei de volta.
O Cássio pôs a mão no meu joelho por um segundo, só um segundo, só pra dizer que estava ali e então a porta lateral abriu.
Ana Krieger entrou.
Eu não sabia o que esperava.
Talvez a mesma compostura do Jonathan, aquela armadura de quem se preparou para a performance. Mas Ana era diferente, sempre foi, eu devia ter percebido isso antes. Onde o Jonathan usava frieza, ela usava calor. Onde ele intimidava, ela seduzia.
Ela entrou com os ombros levemente curvados, o rosto com aquela expressão de quem está carregando um peso injusto, o olhar varrendo a sala com aquela velocidade de quem está calculando a audiência antes de começar o espetáculo.
E então viu o avô.
E foi lá que os seus olhos se fixaram, não para o juiz, não para o promotor, não para mim. Para o avô, com aquela expressão de neta arrependida que eu imaginava que ela tinha praticado no espelho por semanas.
O Victor não moveu um músculo.
"Vovô..." as palavras saíram baixas e arrastadas, mas nós ouvimos.
Ele não se incomodou.
Ela foi levada até seu lugar, mas ela continuava buscando qualquer migalha do avô.
A leitura das acusações começou, e eu ouvi cada item com aquela atenção de quem sabe que vai precisar guardar aquilo.
Homicídio doloso. Vítima: Pedro Bayron Krieger, cinco anos e Maria Gonzales, 54 anos. Associação criminosa. Fraude. Manipulação de herança.
A sala ficou quieta.
Ana fechou os olhos por um segundo, dramaticamente, aquele fechar de olhos que não é dor, é encenação. A mão dela foi para a boca. Para que, de alguma forma, as pessoas tivessem pena dela.
"A ré é acusada de ser a mandante que vitimou as duas pessoas no carro. Na data, o acidente foi considerado como batida de trânsito ocorrida pelo motorista embriagado, porém com as investigações ainda em andamento, foi descoberta a sabotagem no carro, e que o homem que acertou o carro com os dois ocupantes, foi contratado pelo atual motorista da ré."
Eu respirei fundo pelo nariz.
O promotor continuou, e a cada item eu via a Ana fazendo pequenos ajustes na expressão, um tremor aqui, uma lágrima contida ali, aquela arquitetura emocional que ela construía em tempo real para quem estava olhando.
O problema era que eu estava olhando.
E eu a conhecia.
Quando o advogado dela falou, foi quase difícil de ouvir.
Não pelo conteúdo, pelo tom. Aquela voz mansa construindo uma narrativa de mulher fragilizada pelo ambiente familiar, pressionada pelo avô desde criança, moldada por expectativas impossíveis, vítima de uma dinâmica que a tinha deformado sem que ela percebesse.
Havia uma parte microscópica de mim que entendia que algumas daquelas coisas podiam ser verdade.
E havia uma parte muito maior que pensava no Pedro.
Fiquei olhando para a Ana enquanto o advogado falava, e ela ficou com aquela expressão de quem está ouvindo a própria história contada com compaixão pela primeira vez, os olhos úmidos, o queixo levemente tremido.
Ela era boa. Eu precisava reconhecer isso, ela era muito boa.
Mas o Victor Krieger estava do outro lado da sala com aquela expressão que não se movia, e eu sabia que ele tinha visto cada performance dela na vida, e que não estava comprando nenhuma parte daquilo.
O momento mais absurdo veio quando o juiz deu a palavra para que ela se pronunciasse.
Ana se levantou. Olhou para o juiz com aquela expressão de humildade calculada. E começou.
Falou sobre a infância, sobre o avô que a tinha criado para ser uma herdeira e não uma pessoa, sobre a pressão, sobre o Jonathan que sempre teve mais liberdade, sobre a solidão de crescer sabendo que seu valor estava atrelado a um sobrenome e a um patrimônio.
A voz dela quebrava nos momentos certos.
Ela pausava nos momentos certos.
E então, como se fosse uma virada natural e não uma estratégia calculada, ela se virou para o Victor.
O advogado dela disse alguma coisa que eu não ouvi.
E então ela se virou.
Não para o juiz. Não para o avô. Não para o advogado.
Para mim.
Com aqueles olhos que tinham fingido arrependimento a tarde toda, e que agora não fingiam mais nada, eram só raiva, limpa e direta, sem a camada de encenação que ela tinha mantido por horas.
"É tudo culpa sua." A voz saiu baixa, mas nítida o suficiente para quem estava perto. "Se você tivesse ficado no seu lugar, nada disso teria acontecido. Eu mandei você sumir antes de se casar com o meu irmão. É tudo culpa sua!"
O silêncio durou exatamente um segundo.
Eu me levantei.
Devagar, com aquela barriga de sete meses que não me deixava fazer nada rápido, e fiquei de pé olhando para ela de uma distância que parecia certa.
"Minha culpa é não ter percebido o monstro que você era. Se você teve coragem de matar seu sobrinho por dinheiro, imagina o que mais pode fazer. Eu só não morri naquele dia porque eu saí com uma amiga, porque tenho certeza de que seu plano era eliminar nós dois."
A Ana abriu a boca.
Mas os policiais já estavam chegando, e o Cássio estava ao meu lado, e o advogado dela estava falando alguma coisa para ela em voz baixa e urgente.
E enquanto eles a levavam, o Victor Krieger se levantou do outro lado da sala.
Ela olhou para ele, um último olhar, ainda com aquela esperança residual de quem não consegue acreditar completamente que acabou.
Ele não disse nada.
Só se virou e foi em direção à saída.
E aquilo, eu imaginei, foi pior do que qualquer palavra que ele poderia ter dito.
Quando a sala foi esvaziando, eu fiquei parada por um segundo, o Cássio ao meu lado com a mão nas minhas costas.
"Acabou", eu disse. "Finalmente acabou."

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