Felipe
Eu ouvi a porta se abrir, entendi os passos, o doutor Henrique, eu já reconhecia pelo ritmo. Depois a voz dele, calma como sempre, explicando o que ia acontecer antes de fazer, daquele jeito que eu tinha aprendido a esperar.
"Vamos retirar a proteção agora, Felipe. Pode ser que você sinta sensibilidade à luz, talvez visão embaçada no início. É normal. Não se assuste."
Assenti.
A mão do meu pai estava na minha. A Laís estava do outro lado, eu sabia pelo calor e pelo jeito que ela respirava quando estava contendo alguma coisa.
Senti quando a proteção saiu.
E então veio a luz.
Não era o que eu esperava.
Era tudo, branco demais, claro demais, uma claridade que não tinha forma nem contorno, que entrava de uma vez sem me dar tempo de processar. Pisquei, e não ajudou. Pisquei de novo, e continuava igual. Uma névoa branca e luminosa, onde eu esperava encontrar o mundo.
"Estou vendo tudo branco", eu disse, e minha voz saiu diferente. "Só branco. Não estou vendo nada."
"É normal", o doutor Henrique disse, tranquilo. "Os olhos precisam de um momento para se ajustar. A retina está recebendo luz pela primeira vez depois do procedimento. Respira fundo e tente se acalmar."
Respirei.
Continuava branco.
"Não tô vendo nada", eu repeti, e dessa vez saiu diferente, não era informação, era outra coisa que eu não conseguia segurar. "Por que não estou vendo nada? Deu errado? Aconteceu alguma coisa?"
"Felipe." A voz do meu pai chegou firme e próxima. "Escuta o doutor. Está tudo bem."
"Mas eu não..."
"Respira", minha mãe disse do outro lado. "Só respira. Nós estamos aqui."
Tentei.
A luz continuava grande demais, branca demais, sem nada dentro dela que eu conseguisse reconhecer. E alguma coisa dentro de mim foi ficando apertada de um jeito que eu conhecia, que eu tinha aprendido a reconhecer como o começo do pânico, aquela sensação de chão que some.
E então ouvi.
Uma voz no corredor. Rápida, animada, aquela voz que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.
"Mas eu só quero..."
E a voz do Cássio, cortando:
"Aelyn, eu disse..."
"Mas ele precisa de..."
"Aelyn..."
A porta se abriu.
Passos pequenos e rápidos cruzaram o quarto, e então uma mão pequena e firme encontrou a minha, do jeito que ela sempre chegava, sem pedir licença, mas sem invadir, só aparecendo como se fosse a coisa mais natural do mundo.
"Eu tô aqui." A voz dela chegou baixa, mais baixa do que o normal dela, daquele jeito específico que ela usava quando queria que eu soubesse que era sério. "E o meu unicórnio também. A gente tá aqui, Felipe."
Fechei os olhos.
Virei o rosto.
E vi meu pai.
Ele estava de pé ao lado da cama, mais alto do que eu tinha calculado quando media a altura pela voz. Cabelo castanho claro, olhos claros, e estava chorando, sem esconder, sem tentar parar, com aquele choro que não pede licença.
Eu fiquei olhando para ele.
Para o rosto que tinha me dito você é meu filho antes de me conhecer de verdade. Para as mãos que tinham segurado as minhas em cada consulta, em cada momento em que o chão sumia. Para aquele homem que eu conhecia inteiro sem nunca ter visto.
Agora eu via.
Me virei para o outro lado.
A minha mãe estava ali, e ela era morena, cabelo escuro e comprido, olhos que tinham aquela cor quente que eu não sabia nomear ainda, e era linda de um jeito que me pegou desprevenido, aquele tipo de linda que não é só o rosto, é a forma inteira de estar no mundo.
Ela estava com a mão na boca.
Olhando para mim com aquela expressão que eu reconhecia mesmo sem nunca ter visto, aquela expressão de mãe que eu tinha aprendido a sentir antes de poder ver.
O quarto estava em silêncio.
Eu fiquei parado, olhando de um para o outro, para a Aelyn, para o meu pai, para a Laís, para o doutor Henrique que estava de lado com aquela satisfação quieta de quem sabe que fez o que veio fazer.
Havia tanto para processar que eu não conseguia começar.
Só sentir, a infinidade de emoções que continuavam a entrar em mim.

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