Aelyn
O filme tinha acabado.
Eu sabia disso porque as luzes voltaram e as pessoas ao redor começaram a se mexer, mas honestamente eu tinha passado boa parte da última hora e meia completamente alheia a qualquer coisa que estava acontecendo na tela.
A mão do Felipe.
Era isso que eu tinha.
Aquele gesto que ele tinha feito sem avisar, sem pedir licença, que tinha chegado antes que eu pudesse decidir o que fazer com ele, e que eu tinha deixado ficar porque... porque eu sempre deixava, porque havia algo naquilo que era impossível de recusar, porque, quando era ele, eu não tinha os mesmos reflexos de proteção que eu tinha com todo mundo.
Eu queria que ele ficasse ali para sempre.
Era essa a verdade que eu carregava saindo da sala de cinema com a bolsa no ombro e o Luciano ao meu lado e o peso específico de saber que aquele momento tinha acabado.
Eu queria que fosse sempre ele do meu lado.
Que fosse sempre aquela mão.
Que fosse sempre aquele perfume misturado com o cheiro de pipoca fria e cinema vazio.
Mas eu sabia, com aquela clareza dolorosa que eu tinha desenvolvido ao longo de anos de prática, que isso era bem improvável.
"E o que a gente vai fazer agora?", a Serena perguntou, assim que saímos, olhando para os dois lados do corredor do shopping com aquela energia de quem ainda tem bateria quando todo mundo está no vermelho.
"Já está tarde", o Felipe disse, com aquela voz de quem já está mentalmente de volta no escritório. "Amanhã eu trabalho, então acho que a gente devia ir embora."
"Sem comer nada?", a Sophia disse, com aquele tom de criança mimada.
"A gente pode pegar algo para ir comendo no caminho", eu disse, antes que aquilo virasse negociação. "Não tem problema."
Luciano colocou o braço sobre os meus ombros, daquele jeito que eu já sabia que não era aleatório, que tinha intenção, que era calculado com a precisão de quem entende muito bem o que está fazendo e me olhou de lado com aquele sorriso.
"A gente podia ir comer algo lá em casa", ele disse, com aquela leveza. "E você já dormia por lá. Eu te deixo na clínica bem cedo amanhã, antes do meu plantão."
Eu sorri de lado, entendendo o plano por trás da proposta.
"Você sabe que tenho pacientes cedo", eu disse, testando.
"Sei. Por isso estou oferecendo o transporte." Ele encolheu um ombro. "Ainda não quero me despedir de você."
Eu estava quase concordando, tinha a lógica na ponta da língua, já estava montando o argumento de que fazia sentido, de que era prático, de que não havia razão para recusar, quando senti.
Uma mão no meu braço.
Firme.
Me puxando para o lado.
Eu me virei instintivamente e de repente, o Felipe estava entre mim e o Luciano, tinha se colocado ali com aquela rapidez de quem agiu antes de pensar, e eu fiquei olhando para ele com os olhos arregalados, tentando entender o que estava acontecendo.
"Ela não vai dormir na sua casa."
A voz saiu diferente, não a voz de sempre, não aquela voz controlada e direta que eu conhecia de anos. Era outra, mais funda, mais tensa, aquela que ele usava quando estava pronto para uma briga. A que usa dentro dos tribunais.
Eu abri a boca para falar algo, mas não saiu... Abri de novo e as palavras morreram de novo.
"Vocês podem estar namorando", ele continuou, olhando para o Luciano, "mas nem eu nem minha família te conhece direito. Tenha mais respeito."
Por dentro, eu queria rir.
O corredor tinha aquele movimento de fim de noite de shopping, gente indo embora, lojas fechando, aquela luz que vai ficando mais vazia. Eu caminhei ao lado do Luciano sem olhar para trás, sem verificar se o Felipe estava nos seguindo, sem me permitir checar.
O estacionamento estava mais quieto quando chegamos.
Entramos no carro.
Eu fiquei parada por um segundo depois que a porta fechou, olhando para o para-brisa, deixando o silêncio pousar.
"Ele vai me odiar depois disso, né?", eu disse, por fim.
O Luciano ficou quieto por um momento.
"Não." Ele ligou o motor, mas não saiu ainda, ficou parado com aquela calma dele. "Mas vamos ter que manter essa farsa de namorados por mais um tempo."
Eu virei o rosto para ele.
Ele me olhou de volta com aquele sorriso que dizia que ele sabia exatamente o que estava fazendo.
"Ele perdeu o controle, Aelyn." A voz estava mais séria agora. "Completamente. Em público. Na nossa frente. Isso não é um homem indiferente."
Eu olhei para o para-brisa de novo.
Não disse nada.
Mas algo dentro de mim, que eu tinha tentado apagar naquela noite, naquela decisão de última vez que eu tinha tomado com tanta firmeza antes do filme, estava aceso de novo.
Pequeno.
Mas aceso.

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