Felipe
O apartamento estava quieto.
Eu tinha pensado em ir para a casa dos meus pais, onde estava ficando enquanto eles viajavam, mas a Sophia tinha ficado na casa da Aelyn, o que significava que eu podia vir para o meu canto sem precisar explicar nada para ninguém.
Pelo menos ali eu não tinha tantas lembranças dela.
Ou achei que não tinha.
Entrei, fechei a porta, larguei as chaves no aparador e fiquei parado no meio da sala olhando para nada.
Tinha saído da casa dela, descido as escadas, entrado no carro, dirigido até aqui e não lembrava de nenhuma dessas coisas com clareza. Era tudo uma sequência de movimentos automáticos que o corpo tinha executado enquanto a cabeça estava em outro lugar completamente.
Peguei o celular.
Liguei para a Sophia.
Ela atendeu depois de quatro chamadas, com aquela voz de quem foi arrancada do sono.
"Felipe?"
"Está tudo bem aí?"
"Sim. Estávamos dormindo." Uma pausa que era um segundo a mais do que o necessário. "Estou ligando para a Aelyn e ela não atende. Sabe se ela está bem?"
"Ela já deve estar dormindo também, né. Você viu que horas são?" Completamente irritada. "Vai dormir você também."
Desligou na minha cara. Fiquei olhando para o celular e pensando, quando minha irmãzinha tinha se tornado aquele tipo de pessoa?
Tentei a Aelyn mais duas vezes e em ambas caiu na caixa postal.
Larguei o celular no sofá e fui até a janela, olhando para a cidade que não dormia. As luzes lá fora existiam com aquela indiferença específica de quem não sabe e não precisa saber do que está acontecendo na minha cabeça.
Eu tinha beijado a Aelyn.
E agora precisava entender o que fazer com isso.
O que eu tinha feito era impulsivo, completamente fora do padrão de qualquer coisa que eu fazia normalmente. Eu pensava antes de agir. Pesava consequências. Construía argumentos antes de tomar posição.
E aí eu tinha simplesmente ido.
Por que quatro anos atrás eu não tinha feito a mesma coisa?
A resposta chegou com aquela clareza irritante de coisas que você sabe mas fingia não saber: porque eu tinha medo. Medo de perder o que tínhamos. Medo de errar. Medo de que ela fosse mais importante como parte fixa da minha vida do que como um risco que eu não sabia se conseguiria correr.
Mas ela tinha tentado me beijar naquela virada de ano.
E eu tinha recuado.
E desde então ela tinha aprendido a não tentar mais, a guardar aquilo, a seguir em frente, de um jeito tão completo que tinha encontrado alguém. Meses. Ela estava com ele há meses sem que eu soubesse, sem que ninguém soubesse.
Isso me dizia alguma coisa sobre o quanto ela tinha decidido não esperar mais.
E se eu tivesse chegado tarde demais?
Fui até o sofá e fiquei olhando para o teto por um tempo longo.
Em algum momento entre a madrugada e o amanhecer, parei de me martirizar e comecei a pensar de verdade.
Não no que eu tinha feito de errado, já sabia o que tinha feito de errado, a lista estava clara e não precisava de mais revisão. Mas no que eu queria fazer agora. No que eu ia fazer.
Sem medo.
Meu pensamento foi interrompido quando a porta se abriu.
Liana entrou com uma pasta, aquela eficiência dela de quem já está trabalhando antes mesmo de chegar à empresa.
"Bom dia, doutor Felipe. Mais um caso urgente."
"Sempre são." Peguei a pasta. "Obrigado, Liana."
Ela virou para sair.
"Mais uma coisa." Ela parou. "Você conhece alguma floricultura que faz entrega?"
Ela me olhou com aquela expressão profissional que não entregava nada.
"Não de cabeça. Mas pesquiso agora se quiser."
"Quero sim. Obrigado."
Ela saiu.
Eu olhei para o processo na minha frente.
Mandar flores não resolvia nada. Não apagava quatro anos de recuo, não desfazia o fato de que ela estava com outro, não garantia nada.
Mas era o começo.
E eu tinha demorado tempo suficiente para começar.

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