Branca
Aelyn estava diferente.
Não era só o corpo, mais firme, mais seguro, caminhando sem aquele cuidado excessivo que a acompanhou por tanto tempo. Era o brilho nos olhos. A leveza. Como se algo dentro dela tivesse finalmente entendido que sobreviver não era mais a única meta.
O fisioterapeuta foi claro naquele dia.
“Ela pode voltar a caminhar normalmente. Nada de excessos, nada de correr ainda, mas pode retomar a rotina.”
Aelyn quase pulou da cadeira.
“Então eu posso fazer tudo sozinha?”, perguntou, animada.
“Quase tudo”, ele respondeu, sorrindo. “E sempre avisando os adultos.”
Ela concordou com tanta seriedade que me fez rir.
O coração do meu menino realmente tinha salvado aquela menininha, e isso era um acalento ao meu coração. Saber que a decisão mais difícil da minha vida, tinha realmente dado a possibilidade para outras pessoas.
Foi no caminho de volta para o quarto que veio a ideia.
“Tia Branca… agora que eu tô melhor, a gente pode fazer uma noite do pijama?”
Sorri de imediato.
“Isso eu preciso ver com o seu pai.”
“Mas amanhã é sua folga”, ela disse, como se fosse óbvio.
Parei.
“Como você sabe disso?”
Ela deu de ombros.
“Eu escuto as pessoas falando.”
Ri baixo.
“Folga é o dia em que eu não trabalho”, expliquei. “É quando eu resolvo minhas coisas, fora da sua casa.”
Os olhos dela se arregalaram.
“Então você vai embora?”
Meu peito apertou na hora.
“Não”, respondi rápido, me abaixando na frente dela. “Eu só não venho trabalhar nesse dia. Mas continuo aqui. Entendeu? Eu volto a noite para dormir com você, como todos os dias. Só não vou passar o dia com você.”
Ela me observou por alguns segundos, avaliando se podia confiar naquela resposta.
“Eu vou sentir saudade”, disse, baixinho.
“Eu também”, confessei. “Mas passa rápido.”
Ela assentiu, ainda pensativa, e voltou a falar da noite do pijama como se fosse a coisa mais importante do mundo.
"Mas eu preciso de uma noite do pijama. Eu vi as meninas na Internet fazendo e deve ser muito legal. Como eu não tenho amigas, você e o papai vão fazer comigo."
"Sabe que seu pai tem que autorizar. E não sabemos se ele vai estar disponível."
"Manda uma mensagem pra ele então. Diz que eu quero muito. Ou deixa eu mandar um áudio, ele vai entender."
"Tá, depois que você almoçar tudo eu mando. E não demore que hoje você tem prova, lembra?" ela revirou os olhos.
"Quando vou poder ir para a escola normal?"
"Ainda não sei pequena, sei pai quer ter certeza sobre a sua segurança. Mas logo, tenho certeza."
Assim que deixei ela realizando a prova no computador, mandei uma mensagem para o Cássio perguntando se podíamos fazer uma noite de cinema. Algo simples. Filme, pipoca, suco.
Jogou-o sobre o sofá sem cuidado algum. Desabotoou os punhos da camisa e arregaçou as mangas até o antebraço, os movimentos precisos, contidos, como se estivesse segurando algo dentro de si.
Não sei por que aquilo me atingiu daquele jeito.
Talvez fosse o cansaço. Talvez fosse a tensão que eu sentia no ar. Talvez fosse só ele.
Sentou-se ao meu lado e soltou o ar lentamente, como se falar comigo exigisse mais esforço do que enfrentar um tribunal inteiro.
“Aconteceu alguma coisa?”, perguntei.
Ele demorou a responder.
“Sim.”
Mordi o lábio, esperando.
Inclinei-me um pouco mais perto.
“O que foi?”, pedi. “Fala comigo.”
Coloquei a mão no antebraço dele sem pensar.
Ele me encarou.
E naquele olhar havia dúvida. Peso. Decisão.
Então ele me beijou.
Foi rápido. Intenso. Um beijo que roubou meu ar e deixou tudo em suspensão por um segundo eterno. Quando se afastou, ainda estava perto demais.
“Cancele qualquer coisa que você ia fazer amanhã”, disse, a voz baixa. “Você não vai sair dessa casa.”
"O quê?"

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