Branca
Eu estava estranhamente calma.
Não calma de verdade, aquela calma falsa que vem antes de uma tempestade. Por dentro, algo vibrava, atento, esperando o momento exato em que ele iria agir. Cássio não era do tipo que deixava passar. Nunca foi. E eu sabia que aquele sorriso controlado que ele usava agora era só a tampa de algo muito mais intenso.
Levantei do sofá com naturalidade ensaiada.
"Senhor Ravelli", falei, chamando sua atenção antes que ele explodisse em silêncio. "Essa é a Laís, minha amiga."
Laís sorriu, simpática, completamente alheia ao campo minado emocional que estava montado ali.
"A gente tinha combinado de ir ao cinema", continuei, tranquila demais para quem estava testando a paciência de um juiz acostumado a mandar em tudo. "Mas como não deu certo, chamei ela pra assistir o filme com a gente."
Cássio largou as sacolas no sofá.
O som foi seco. Definitivo.
"Não tem problema algum", ele respondeu.
A voz estava perfeitamente controlada. Educada. Mas eu conhecia aquele tom. Por baixo da calma, havia algo fervendo. Algo que queria respostas. Algo que queria me arrancar da sala e exigir explicações.
Ele sorriu para a Laís, um sorriso social, treinado.
"Seja bem-vinda, Lais. Fiquem à vontade. Vou só trocar de roupa."
E saiu. Assim. Simples. Contido demais.
Laís soltou o ar como se nada tivesse acontecido.
"Esse seu chefe. Eu já vi ele em algum lugar." Olhei para Aelyn que estava entretida brincando com o urso novo.
"O cara do bar." minha amiga colocou a mão na boca, segurando a água que quase vasou para todo lugar.
"É ele... o cara do bar." ela então começou a gargalhar. "Meu Deus que mundo pequeno."
Sorri de lado.
"Você não faz ideia." Não contei a ela sobre o coração do Pedro dentro da Aelyn. Ela me chamaria de louca, tenho certeza. Eu estava apenas alimentando uma ansia de ainda ter meu pequeno por perto.
Voltamos nossa atenção para a Aelyn, que já estava abrindo as sacolas com empolgação.
"Olha isso, tia Branca! Ele comprou tudo o que eu gosto! Marshmallow!" ela fez uma carinha linda. "Esse chocolate é o melhor! E tem pipoca gourmet! Meu papai pensou em tudo."
O entusiasmo dela preenchia a sala, e por um momento eu quase esqueci da tensão. Quase.
Ajudei a organizar as coisas sobre a mesa, distribuindo potes, copos, comentando com a Laís sobre o filme que ela tinha escolhido. Tudo parecia… normal demais.
Foi quando vi.
A rosa.
A mão dele ainda segurava meu braço, não com força, mas com intenção suficiente para me manter ali. O polegar pressionava de leve a pele, um gesto que não era violento, era possessivo. Consciente.
"Você deixou que eu entendesse que o seu convidado era um homem", continuou, aproximando-se um pouco mais. "Falou isso para mim e pediu para os seguranças dizerem o mesmo."
"Talvez eu quisesse ver se o frio juiz tinha sentimentos", falei, irônica. "E descobri que tem sim, mas são mais obsessivos do que eu imaginava."
"Branca, Branca... Você está brincando com fogo. E não vai gostar quando eu te queimar."
O tom não era agressivo. Era honesto. E isso me desarmou mais do que qualquer grito.
"Você devia ter me falado a verdade", ele completou.
Cruzei os braços, a rosa ainda presa entre meus dedos.
"Eu sei, ultrapassei os limites, mas foi divertido."
Ele estreitou os olhos.
"Divertido vai ser o que eu vou fazer com você mais tarde, sua diabinha." meus olhos se arregalaram e quase gargalhei com suas palavras.
"Então podemos resolver isso depois. Vamos sair logo daqui antes que a Aelyn perceba que nós dois sumimos." ele se aproximou mais um pouco e viu a rosa em minha mão.
"Ah, estou indo colocar em um vaso de água. A Aelyn não percebeu ela junto com o urso. Quando ela ver, vai ficar encantada."
"E você também ficou?"

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