Branca
O mundo desabou de vez.
As mãos começaram a tremer antes mesmo que eu percebesse. O peito apertou como se alguém estivesse esmagando meu coração por dentro, e o ar simplesmente não entrava direito. O monitor ao meu lado começou a apitar mais rápido, denunciando o que eu já sentia.
“Calma… calma”, alguém disse.
A porta se abriu de uma vez.
Enfermeiros. Um médico. Luz forte demais. Vozes sobrepostas.
“Ela está taquicárdica.”
“Pressão caindo.”
“Branca, olha pra mim. Consegue me ouvir?”
Eu conseguia ouvir. Mas não conseguia falar.
Meu corpo inteiro tremia, os dentes batiam, e a imagem do rosto de Jonathan voltava como um soco repetido na minha cabeça. O sorriso. A voz. A mão no meu cabelo.
A médica se aproximou.
“O que está acontecendo com você?”, perguntou, firme, tentando me ancorar. “Você precisa me dizer.”
Abri a boca, mas nada saiu.
Foi quando vi André entrando no quarto, empurrando quem estivesse no caminho.
“O que está acontecendo aqui?”, ele perguntou, já vindo direto até mim.
Quando senti os braços dele ao meu redor, tudo desmoronou.
Chorei como não chorava há anos. Um choro feio, alto, desesperado, preso no fundo do peito desde o dia em que perdi o Pedro. Minhas mãos se agarraram à camisa dele como se fosse a única coisa sólida no mundo.
“O que aconteceu com você?”, ele repetiu, agora mais baixo, desesperado. “Fala comigo, Branca. Pelo amor de Deus. O que foi?”
Demorei alguns segundos para conseguir formar palavras.
“Foi… foi o Jonathan”, consegui dizer, a voz quebrada. “Ele… ele veio aqui.”
O corpo dele enrijeceu na mesma hora.
“O quê?”, ele perguntou, sem acreditar. “Como assim veio aqui?”
“Ele estava… vestido de enfermeiro.”
Os olhos do André se arregalaram de um jeito assustador.
Ele se virou para a equipe médica, a voz explodindo.
“O ex-marido dela”, gritou. “Um abusador do caralho passou por vocês vestido de enfermeiro e entrou aqui dentro! O que vocês estavam fazendo? Quem deixou esse maníaco chegar até ela?”
O quarto virou um caos.
“Isso é impossível…”
“Precisamos chamar a segurança…”
“As câmeras…”
André voltou para mim, segurando meu rosto com cuidado.
“Ele te machucou?”, perguntou, os olhos queimando de raiva.
Assenti.
“Ele… ele me bateu.”
"Vou te dar um calmante, que vai fazer você relaxar e descansar. Depois..."
"Não quero... não vou dormir." falei imediatamente.
A porta se abriu de novo.
E eu senti antes mesmo de ver.
Cássio entrou no quarto com uma expressão que eu nunca tinha visto antes. Não era preocupação. Era algo mais escuro. Mais frio. Mortal.
Ele não falou nada no começo.
Apenas veio até mim.
Abaixou-se ao lado da cama e me puxou para os braços dele com cuidado absoluto, como se eu fosse feita de vidro.
“Eu vou achar ele”, disse no meu ouvido, a voz baixa, firme. “Eu juro que vou.”
As mãos dele tocaram meu rosto, de leve, parando na marca sensível pelo tapa.
“Eu vou acabar com ele, Branca”, continuou. “Dessa vez ele não vai sair impune.”
Eu chorei contra o peito dele, agarrada nele com uma mão, enquanto com a outra segurava a mão do André. Como se precisasse dos dois ali para não despedaçar de vez.
Cássio então se levantou e encarou a equipe médica, os enfermeiros, a segurança que começava a chegar.
“Quero ver quem vai tirar um de nós dois daqui de agora em diante”, disse, a voz cortando o ar. “Ela não fica sozinha nem por um segundo.”
E naquele instante, mesmo ferida, mesmo quebrada, mesmo com o passado me caçando…
Eu soube.
Eu não estava mais sozinha.

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