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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 67

Branca

Não sei quanto tempo dormi.

O corpo ainda estava pesado, a dor vinha em ondas suaves, controladas pelos remédios. Abri os olhos devagar, piscando algumas vezes até a visão se ajustar.

Vi uma mulher de costas para mim.

Estava de pé, perto da janela, observando o jardim com as mãos cruzadas à frente do corpo. Postura reta. Elegante. Familiar de um jeito que apertou meu peito antes mesmo de minha mente alcançar.

Me movi na cama com cuidado.

“Olá…” minha voz saiu baixa, rouca de sono.

A mulher se virou e o mundo parou.

“Mamãe…”

Ela levou a mão à boca no mesmo instante. Os olhos marejaram, e em dois passos rápidos ela já estava ao meu lado, me puxando para um abraço apertado, urgente, como se tivesse medo de eu desaparecer se soltasse.

“Minha filha… meu Deus, minha filha…” beijava meu rosto, meu cabelo, minhas têmporas. “Eu não acredito que estive tão perto esse tempo todo e não sabia. Não acredito.”

As lágrimas vieram sem pedir permissão.

Cinco anos.

Cinco longos anos.

“Quando o André me contou que tinha te encontrado… e depois tudo isso que aconteceu… eu não sabia se ria ou se chorava.” Ela me abraçou de novo, mais forte. “Achei que tinha te perdido para sempre.”

Respirei fundo, tentando me ancorar naquele cheiro conhecido, naquela presença que sempre foi porto e também tempestade.

Quando nos afastamos um pouco, ela enxugou meu rosto com os polegares, me examinando como se eu ainda fosse adolescente.

Então meu olhar deslizou para a cama mais baixa, vazia.

"Onde está a Aelyn? Ela estava dormindo..."

“Ela acordou há meia hora”, respondeu. “E foi ficar com o pai.” Assenti. “Eu pedi para eles nos deixarem um momento sozinhas.”

"Obrigada. Tudo ainda está muito confuso para ela."

Houve um silêncio curto. Denso.

Então ela respirou fundo e veio a pergunta que eu sabia que viria.

“Por que você não me procurou quando fugiu, Branca?” A voz não era acusatória. Era ferida. “Eu poderia ter ajudado. Poderia ter mandado vocês para mais longe. Para fora do país, se fosse preciso. Talvez o Pedro ainda estaria...”

Soltei o ar devagar.

“Jonathan nos acharia”, respondi. “Ele sempre acha.” Engoli em seco. “Acho que o André te contou que ele apareceu no hospital.”

O rosto dela se fechou.

“Contou.”

“Ele não vai parar, mamãe.” Olhei direto para ela. “Você sabe disso. Conviveu com meu pai até a morte dele. Só teve paz depois e olha lá, porque meu avô ainda te perturbou, quando tentou intervir para me ajudar.”

Os olhos dela baixaram por um instante.

Concordou com a cabeça.

“Mas com você é diferente”, disse. “Agora você tem o André. Tem a mim. A gente pode te proteger. Se você quiser, a gente procura um lugar para você agora mesmo, e você já se muda... eu posso ir com você. André mantém as coisas... enquanto a gente se muda para bem longe.”

Balancei a cabeça.

Quando abri, minha voz saiu firme.

“Mamãe, eu já perdi tudo.”

Ela se calou.

“Perdi meu filho. Perdi o amor da minha vida. A pessoa que eu mais amava no mundo, por quem eu lutei a vida toda. Tudo que eu fiz foi por ele, e pra que? Me diz? Pra que? Eu o pedi no final.” Senti a garganta arder, mas continuei. “E não vou perder a única coisa que ainda me faz sorrir.”

Ela tentou falar, mas levantei a mão.

“Eu sei que não posso transferir meu luto para a Aelyn. Sei disso.” As palavras saíram mais rápidas. “Mas agora eu só escolho me manter de pé. Porque ela está ali. Lutando. Vivendo. Continuando. E eu quero poder protegê-la, como eu não pude proteger o Pedro.”

Minha mãe me olhava em silêncio, surpresa.

“E se a senhora acha que estou tomando uma decisão errada…” respirei fundo. “Então, assim como o André, a senhora não me conhece mais.”

O impacto foi visível.

“Eu não vou sair daqui”, finalizei. “Não até que o Cássio me diga que nosso contrato acabou.” Pausei. “Eu me sinto bem aqui. Segura. E, de verdade… não quero opiniões sobre isso.”

O silêncio caiu pesado entre nós.

Minha mãe levou a mão ao peito, como se precisasse se recompor.

“Você sempre foi teimosa”, disse por fim, com a voz baixa.

“Aprendi com a senhora.”

Ela me encarou por longos segundos.

“Mas está na hora de ser racional”, disse, baixa. “Porque quando você não é… alguém sempre paga por isso.”

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