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Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 72

Branca

O silêncio entre nós não era vazio. Era carregado de tensão. Estava claro que tinha algo mais ali.

“Fala, Cássio”, eu disse, a voz baixa, mas dura. “É dessa Clara que você está falando, não é?”

Ele fechou os olhos por um instante antes de responder.

“É. É dessa Clara.”

Meu estômago se contraiu.

“Por quê?” Inclinei o corpo um pouco para frente. “O que ela tem a ver com isso? O que ela fez?”

Ele suspirou fundo, como se estivesse escolhendo por onde começar… ou o quanto iria me deixar ver.

“Ela me enganou.” Passou a mão pelo rosto. “Eu pedi um favor. Em troca, paguei a hipoteca da casa dela.”

Meu coração acelerou.

“Que favor?”

Ele hesitou.

“Ela me disse o valor. Eu transferi. Não conferi o destino.” Engoliu em seco. “Agora esse dinheiro apareceu na Suíça. Sem remetente. Sem destino claro. E acham que foi para comprar o coração da Aelyn.”

Minha cabeça começou a zunir.

“Mas não foi isso”, ele continuou rápido. “Eu juro. Não foi.”

Eu já não ouvia tudo. As peças começaram a se mover sozinhas dentro de mim.

“Que favor você pediu a ela?”, repeti, mais firme. "Me fala, Cássio."

Ele não respondeu.

Levantei num impulso, esquecendo completamente da dor, do corpo, de tudo.

Cássio tentou me segurar.

“Branca, espera...”

Afastei a mão dele com força.

“Que porra de favor você pediu pra ela, Cássio?”

Ele me encarou.

E naquele olhar… estava a resposta.

A ficha caiu de uma vez. Um baque seco dentro do peito.

“Ah.” Ri sem humor. “Mas é claro.”

Ele deu um passo na minha direção.

“Branca...”

“Foi ela”, continuei, sentindo o sangue ferver. “Foi a Clara que me empurrou pra esse emprego. Foi ela que notificou o órgão regulador. Foi ela que fez eu perder minha licença.”

Minha voz começou a tremer, mas não parei.

“Você pediu isso a ela, não pediu?” Engoli em seco. “Você armou pra mim.”

Ele mordeu o lábio, claramente tentando se aproximar.

“Não pedi exatamente isso, mas eu queria você. Eu não te conhecia”, disse. “Mas eu sabia do que a Aelyn precisava. E ela precisava de você.”

Aquilo doeu mais do que qualquer xingamento.

“Branca!”

Cássio chegou em mim em segundos.

“Deixa eu ver, deixa...”

“Não encosta em mim”, tentei dizer, mas minhas pernas já estavam fracas demais.

Ele não discutiu.

Me pegou no colo com cuidado e correu comigo para o quarto dele, me colocando na cama, ajustando os travesseiros às pressas.

As lágrimas escorriam sem controle.

“Calma. Respira. Vou buscar seu remédio...”, ele dizia, já saindo do quarto.

Levantei a blusa com dificuldade, as mãos tremendo, tentando ver se algo tinha aberto. Por fora, parecia tudo normal. Mas a dor ainda pulsava.

Cássio voltou rápido, ajoelhando ao lado da cama com o remédio.

“Engole isso.” A voz dele estava tensa. “Agora.”

Tomei, sem discutir.

Ele examinou o curativo com cuidado, os dedos firmes, mas gentis.

“Se essa dor não melhorar em meia hora, a gente vai pro hospital”, disse. “Sem negociação.”

Fechei os olhos.

Porque naquele momento, não era só o meu corpo que estava ferido.

Era a confiança, escolha, a certeza de que eu estava segura ali.

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