Cássio
O corredor do hospital parecia mais estreito do que antes.
Ou talvez fosse só a sensação de estar com o peito comprimido, como se o ar tivesse ficado escasso desde que a porta do quarto se fechou atrás dele. Caminhou até o consultório médico com passos firmes demais para alguém que estava à beira de perder o controle.
Precisava de respostas.
"Boa noite doutor, podemos conversar?" falei assim que o encontrei e ele me indicou uma cadeira.
"Claro, imagino que queira saber como sua namorada está." Concordei sem o corrigir, porque era isso que eu queria que ela fosse.
O médico puxou o prontuário dela no sistema e deu uma lida, antes de me passar todos os detalhes.
“Ela teve uma pequena hemorragia interna”, explicou com calma. “Provavelmente causada pelo esforço ao se levantar tão cedo e ter tropeçado. Um ponto interno cedeu, mas conseguimos controlar com medicação.”
Senti os ombros relaxarem um pouco.
“Ela corre risco? Vai ter que fechar alguma nova cirurgia?"
“Não. A resposta ao medicamento foi boa.” O médico fez uma pausa. “Vamos mantê-la em observação por cerca de três horas. Se tudo continuar estável, ela pode ir para casa ainda hoje. Mas o repouso agora precisa ser absoluto.”
“Entendi.” assenti. “Obrigado.”
"Senhor Ravelli, precisa entender que, por mais simples que pareça, sua namorada teve muita sorte. Se a faca pega em algum outro órgão, a conversa seria completamente diferente. Mas ainda assim existem riscos, e ela precisa repousar. Faça o possível para que ela siga o planejamento médico."
"Farei doutor. Branca é teimosa, mas sei que não é irresponsável. Vou fazê-la cumprir como mandou."
"É o melhor. Sei que ela quer voltar a vida normal, mas precisa ter um pouquinho de paciência." Concordei, agradecendo novamente.
Mesmo que ela não quisesse me ouvir mais, eu faria ela obedecer às recomendações médicas.
Saí dali respirando fundo, tentando organizar os pensamentos, quando avistei André na recepção. O irmão de Branca estava parado, braços cruzados, expressão tensa, claramente esperando por mim.
“O que aconteceu?”, perguntou assim que me aproximei.
“Ela tropeçou. Um ponto interno cedeu. Houve uma pequena hemorragia, mas já foi controlada. Vai ficar em observação e depois volta pra casa.” falei de uma vez. Não tinha por que enrolar esse assunto.
André fechou os olhos por um segundo.
“Isso foi culpa sua… ou da minha mãe?”
Soltei o ar devagar.
“Dos dois.”
André abriu os olhos.
“Acho que você sabia exatamente o que estava fazendo quando mandou sua mãe pra lá”, continuei. “Mas não pensou na Branca.” A mandíbula dele travou. “Ela está sendo pressionada, diminuída, tratada como uma criança. Sua mãe está tentando apagar tudo o que ela viveu.”
“Cala a boca, caralho. Só faz o que eu estou te dizendo. Estou usando tudo de mim para não entrar naquele quarto e obrigá-la a voltar para minha casa, então aproveite sua chance, pois como você mesmo disse, são raras.”
André assentiu, ainda rindo, e saiu em direção aos quartos.
Voltei a me sentar na recepção, o corpo finalmente cedendo ao peso daquele dia impossível. Encostei as costas na cadeira, fechei os olhos por um segundo.
Ela estava bem e era isso que importava, o resto eu resolveria depois.
Estava soltando um último fôlego quando senti, o frio metálico pressionando sua costela.
Não precisei olhar para saber que era uma pistola pressionada contra mim.
No desespero daquela noite, eu nem me lembrei de colocar o meu colete. Eu estava rindo de desgosto por dentro.
“Levante-se devagar”, disse uma voz baixa, controlada, próxima demais do seu ouvido. “E me acompanhe. Sem gracinha, juiz.”
Meu sangue gelou.
Abri os olhos com cuidado, mantendo a expressão neutra.
"Claro, e para onde vamos." falei seco e o homem continuou.
"Logo você vai descobrir." o acompanhei até o lado de fora e entrei em um furgão escuro. Assim que me sentei, um capuz foi colocado em minha cabeça, e tudo se tornou incerto.

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