Cássio
A dor estava espalhada pelo corpo como um aviso constante.
Não gritava, não me derrubava. Era persistente. Teimosa. Daquelas que não somem com analgésicos comuns e fazem questão de lembrar, a cada movimento, que houve um preço.
Ainda assim, ela era pequena perto do barulho na minha cabeça.
A sensação de ter subestimado um homem instável. De ter baixado a guarda no momento errado. De não ter conseguido impedir o que ele já vinha planejando há muito tempo. O que realmente me corroía não era o impacto dos golpes, mas a consciência de que eu não estava no controle como sempre estive.
E isso era inaceitável.
Mas nada se comparava a um pensamento específico, insistente, quase sufocante:
A possibilidade de perdê-la.
Quando a porta se abriu e eu vi a Branca entrando com aquela bandeja ridiculamente simples, chá e bolachas como se isso pudesse consertar o mundo, alguma coisa dentro de mim desacelerou.
Ela não devia estar ali.
E ainda assim… estava.
“Você não devia estar andando”, murmurei, observando cada passo cuidadoso, cada respiração contida.
“Nem você devia ter provocado um psicopata”, ela respondeu, tentando sorrir.
Sorri de volta, mesmo que o movimento fizesse meu maxilar doer.
Ela se sentou na beira da cama, e o colchão cedeu um pouco. Meu corpo reagiu antes de mim, instintivo, puxando o ar como se a proximidade dela fosse um analgésico melhor que qualquer coisa que o hospital tivesse me dado.
Quando os dedos dela tocaram meu rosto, devagar demais, como se eu fosse vidro, fechei os olhos sem perceber.
“Isso dói?”, ela perguntou.
Dizia respeito aos hematomas, mas eu sabia que não era só isso.
“Menos quando é você”, respondi.
Era verdade.
"Mentiroso." ela riu, mas não afastou a mão.
Segurei os dedos dela entre os meus, puxando com cuidado, trazendo-a para mais perto. Precisava sentir que era real. Que ela não tinha ido embora enquanto eu estava fora.
“Eu não tenho medo dele”, disse, antes que o silêncio me traísse.
Vi o alerta imediato no rosto dela.
“Não diga isso como se fosse fácil”, retrucou.
“Não é fácil”, concordei. “Mas é verdade. Eu não tenho medo do Jonathan.”
Tinha ódio. Tinha nojo. Tinha vontade de acabar com ele.
Mas medo, não.
Vi os olhos dela brilharem.
"Então para de me afastar, e de criar uma e história para acalmar seu coração. Nós sabemos que o Jonathan não vai parar, e nos afastar, só vai deixar nós dois vulneráveis, porque ele já sabe, que somos o ponto fraco um do outro."
Ela respirou fundo e eu a puxei para um abraço, onde ela deitou no meu peito.
"Juntos, sabendo onde estamos, conseguimos lidar com ele. Longe só faremos pensar se está tudo bem e ele vai se aproveitar disso."
"Você tem razão..." ela falou em um sussurro.
"Eu não quero ter razão, eu quero ter você comigo." ela ergueu os olhos surpresos. "Quero que você aceite que não somos apenas patrão e babá."
"Você tem certeza disso?" Pousei minha mão na sua nuca, e a trouxe para mais perto.
"Eu nunca tive tanta certeza na minha vida." Nosso beijo foi leve e confidente.
Era como se tudo o que eu tinha enterrado desde a morte da minha esposa tivesse encontrado, finalmente, alguém que não me pedia para fechar de novo.
***
Oii pessoal,
Desculpa estar postando menos esses dias. Estou com a labirintite atacada desde sexta-feira, e está complicado de escrever.
Espero que semana que vem tudo fique melhor, e volto com mais capítulos.
Obrigada

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