Laís
Eu vi a cena antes mesmo de entender o que estava sentindo.
A porta do quarto entreaberta. A cama ocupada demais para um homem só. Branca encostada nele com cuidado, como se ainda estivesse aprendendo onde tocar sem machucar. Aelyn sentada no meio, concentrada, segurando um estetoscópio de brinquedo como se aquilo fosse coisa séria.
E era.
Eles riam baixo. Um riso contido, respeitando o repouso, respeitando o mundo frágil que tinham construído ali dentro.
Aquilo me acertou de um jeito bom.
Branca estava segura. Não só protegida, mas acolhida. Vista. Pela primeira vez desde que eu a conhecia, ela não estava lutando para existir dentro de um espaço. Ela simplesmente cabia ali. Minha amiga tinha achado aquilo que sempre procurou.
Fechei a porta com cuidado e desci.
Se eles estavam brincando de médico, alguém precisava alimentar os pacientes.
A cozinha era grande demais, organizada demais, e ainda assim parecia improvisada para mim. Abri armários, procurei xícaras, café, pão. Mas foi mais difícil do que pensei. Tudo parecia ordenado por uma máquina, e não pela praticidade ou preferência dos moradores da casa.
"Você vai ter que me agradecer muito, amiga. Estou sendo o anjo que nem eu mesma sabia que poderia ser." Dei uma risada de lado, enquanto preparava os lanches.
A campainha tocou, e saí correndo para atender, antes que Branca fizesse isso. Ela com certeza viria até aqui.
Quando abri a porta, dei de cara com André.
"Ah… é você", falei, sem disfarçar o desagrado, revirando os olhos.
Ele me olhou de cima a baixo, claramente pouco feliz com a minha presença depois do que tinha acontecido no dia anterior.
"Vim ver como eles estão", respondeu seco. "Posso?"
Abri mais a porta, dei passagem, e em seguida virei de costas, já caminhando de volta para a cozinha. Como ele era insuportável.
"Pode entrar. Só não sei se eles vão descer hoje", avisei. "A Aelyn decretou que os dois são pacientes e não podem sair do quarto. Estão de repouso absoluto."
Ele soltou um meio sorriso, quase sem perceber.
E me seguiu até a cozinha.
"Então… minha irmã está bem?", perguntou.
Continuei mexendo nas coisas, sem olhar pra ele.
"Não está cem por cento", respondi. "Nunca vai estar. Não sem o Pedro aqui."
Ele assentiu em silêncio.
"Mas está melhor em outros aspectos", continuei. "Acho que essa sempre foi a família que ela quis pro filho."
André respirou fundo.
"Eu tentei, sabe?", disse de repente. "Tentei tirá-la do Jonathan."
Parei por um segundo, mas não respondi.
"Invadi a casa dele duas vezes", ele continuou. "Tomei uma surra nas duas. Só não me mataram porque o pai da Branca não deixou. Dizia que era só saudade de irmão."
Meu estômago revirou.
"Nem sei por que ele me protegia", André murmurou. "Ele que a vendeu pra eles. Mas quando morreu… tudo mudou. Eu sabia que, se tentasse de novo, não sairia vivo. Eu não era nada pra aquela família."
"Eu não conheço a minha irmã." o olhei, mas não havia pena ali, apenas constatação.
"Não. Ninguém conhece. Ela não mostra o que ela é pra ninguém." ele respirou fundo assimilando tudo. "E como te disse no hospital... deixa ela resolver do jeito dela, só fique para dar apoio. É melhor que forçá-la a ser o que ela não é."
"Vou tentar, mas não sei como fazer isso."
"Aprende, como todo mundo." me virei para pegar mais algumas coisas na geladeira, e quando me virei de volta quase esbarrei nele.
"Quer ajuda?" Meus olhos se ergueram para o rosto dele. Ele estava perto demais e ergui minha sobrancelha. Ele deu um passo para trás.
Entreguei uma faca sem pensar.
"Toma, corte os pães."
Trabalhamos lado a lado por alguns minutos. Pão, frutas, café. Nossos dedos se esbarraram uma vez.
Ele não reagiu.
Nem eu.
E não soube dizer se aquilo me decepcionou… ou se foi um alívio.
Lá em cima, ouvi uma gargalhada infantil.
Sorri sozinha.
Pela primeira vez em muito tempo, Branca não precisava sustentar nada. Não precisava ser forte, nem decidir, nem sobreviver.
Ela podia apenas estar ali.

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