Branca Oliveira
Segurei a mão de Aelyn com cuidado e me levantei, para olhar novamente para o idiota atrás de mim.
“Eu só vou terminar de acertar algumas coisas com seu pai e já volto pra ficar com você, tudo bem?”
Ela franziu a testa, desconfiada, e olhou para o pai como se quisesse ter certeza de que aquilo era verdade.
“Tá bom…” disse baixinho. “Mas não demora, por favor.”
“Eu prometo.” Apertei levemente os dedos dela. “Já volto.”
Cássio deu um passo para o lado, indicando a sala onde tínhamos estado minutos antes. Eu soltei a mão da menina e fui, sentindo o ódio pulsar por minhas veias. Ele tinha me encurralado. Eu achava que era esperta, mas não tanto quanto o juiz a minha frente.
Assim que a porta se fechou atrás de nós, perdi o controle.
“Você é mesmo um irresponsável!”, disparei, girando na direção dele. “O que você fez agora foi baixo até pra você.”
Ele riu. Um riso calmo, irritantemente seguro.
“Irresponsável por quê? Por querer o bem da minha filha? Por saber exatamente do que ela precisa?”
“Não.” Cruzei os braços, sentindo o corpo tremer de raiva. “Por me usar. Por me colocar numa situação impossível. Você não pode simplesmente decidir a minha vida assim.”
“Aelyn quer você por perto.” Ele deu de ombros. “E é isso que ela vai ter.”
Bufei, sentindo o sangue ferver.
“Eu sou algum tipo de mercadoria, por acaso? Algo que você compra, decide o destino e pronto? Você não pode chegar aqui mandando no que eu faço.”
“Pode parar.” Ele se aproximou um passo. “Você tem uma vida lá fora?”
Abri a boca para responder, mas ele continuou, sem piedade.
“Você não usa aliança. Vive enfiada naquele hospital. Ficou comigo num bar há poucos dias. E agora quer que eu acredite que deixou alguém te esperando?”
Engoli seco.
Porque a verdade era essa. Não tinha ninguém.
Ninguém esperando por mim. Nenhuma casa cheia. Nenhuma rotina fora do trabalho e da dor.
Levantei o queixo, mesmo assim.
“Não importa o que eu faço da minha vida. O que você fez foi desonesto.” Minha voz saiu firme, apesar do nó na garganta. “Eu tinha o direito de escolher. E você arrancou esse direito de mim.”
Ele me observou por alguns segundos, avaliando cada reação minha. Então sorriu de lado e se aproximou mais, invadindo meu espaço.
“Seja boazinha, Branca.” A voz veio baixa, controlada. “Faça o combinado. Assim que a cirurgia da Aelyn cicatrizar, assim que o risco de rejeição passar… você pode ir embora.”
Aelyn estava sentada na cama, mexendo no tablet. Quando nos viu, sorriu.
“Vocês demoraram.”
Pisquei para ela.
“São muitas regras pra aprender.”
Ela riu baixinho. Cássio me lançou um olhar por cima, mas eu ignorei.
Ele então apontou para o lado da cama hospitalar.
“E aqui…” disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, “é a sua cama.”
Segui o olhar dele.
Uma cama menor, posicionada ao lado da cama de Aelyn.
Meu estômago afundou.
“Espera.” Virei-me devagar. “Então eu não vou ter um quarto meu?”
"Você será a babá, não uma hóspede."

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