Cássio
Aelyn dormia profundamente.
O corpo pequeno relaxado, a respiração tranquila, o rosto corado. Não havia mais aquele tom pálido que me perseguia nos pesadelos. Não havia tubos. Não havia máquinas. Não havia medo.
Branca terminou de cantar em voz baixa e ficou ali, observando minha filha como se estivesse guardando aquele momento dentro de si.
Meu coração apertou.
Não de dor.
De gratidão.
Eu nunca imaginei que alguém pudesse entrar na minha vida desse jeito. Primeiro bagunçando tudo. Depois devolvendo cada coisa ao seu lugar.
Ela levantou o olhar para mim, silenciosa, como se perguntasse se estava tudo bem.
“Agora ela capotou de vez”, murmurei.
Branca sorriu.
“Acho que ela ainda tem os pesadelos porque continua dormindo no quarto hospital”, disse baixinho. “Talvez… se a gente arrumar o quarto dela de novo. Ao lado do seu. Para ela entender que está em casa. Que está segura. Ela se sinta melhor.”
Olhei para Aelyn mais uma vez.
Ela estava quente. Viva. Inteira.
Não havia mais a sombra da morte pairando sobre nós.
Minha filha tinha se curado. E, pela primeira vez desde tudo, eu consegui pensar isso sem medo de dar azar.
Branca tinha razão.
“Você tem razão”, falei. “Amanhã mesmo a gente arruma tudo. Ela precisa voltar para o quarto dela. Podemos ir comprar algumas coisas novas, para transformar isso em um marco.”
Branca sorriu daquele jeito que só ela tinha. Como se tivesse acabado de ganhar algo simples, mas importante.
"Não sei se sair é uma opção, mas podemos encomendar algumas coisas pela internet." sorri de lado.
"Demora demais, e não tenho medo do Jonathan. Eu levo minha equipe de segurança. Mando fechar a loja infantil por uma hora só para nós."
"Você é muito metido." ela sorriu e meu Deus, como ela era linda.
"Só estou abusando do dinheiro que eu consegui com muito esforço. Não tem por que a gente se privar de tudo. Eu sei que tem riscos mas..." olhei de novo para minha filha. "Eu quero que ela se sinta normal de novo." Branca mordeu o lábio e concordou, mesmo que eu ainda pudesse ver a sombra do medo ali.
Levantamos juntos e fomos até o quarto hospital.
Coloquei Aelyn na cama com cuidado, ajeitei o cobertor e beijei sua testa.
Branca fez o mesmo.
Eu estava sedento por ela. Tudo naquela mulher me fazia acreditar que era possível.
“Mesmo você dizendo não, eu vou dizer para todo mundo que você é minha namorada.” falei assim que nosso beijo terminou.
Ela me olhou, surpresa.
“Porque é isso que eu sinto”, continuei. “Não tem mais como a gente ser só patrão e empregada. Eu não quero só isso. Eu quero você na minha vida.”
Ela não disse nada.
Então eu disse tudo que estava sentindo.
“Quero você cuidando da Aelyn desse jeito. Cuidando de mim do seu jeito torto. Quero que a gente seja uma família.”
A boca dela se abriu, e os olhos marejaram, mas eu ainda não tinha terminado.
“Eu gostaria de ter te conhecido antes. De poder mudar o seu passado. De não ter deixado nada daquilo acontecer com você. Eu amaria ter conhecido o Pedro, pois devo muito a ele, e nunca vou cansar de agradecê-lo.” Respirei fundo. “Mas eu não posso mudar o que aconteceu. O que eu posso é te oferecer um futuro. Um lugar seguro. Uma vida inteira pela frente.”
O silêncio que se seguiu não foi de dúvida.
Foi de impacto.
E eu soube, ali, que nada daquilo era impulso.
Era escolha.

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