Entrar Via

Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz romance Capítulo 99

Cássio

A loja de móveis infantis era um caos organizado de cores, cheiros de madeira nova e música animada tocando baixo nos alto-falantes. Eu entrei primeiro, segurando a porta para Branca e Aelyn, mas meus olhos já varriam o ambiente inteiro por instinto. Dois seguranças, o Marcos na frente, o Diego logo atrás, entraram discretos, mas não invisíveis. Um ficou perto da entrada, o outro se posicionou no corredor central, fingindo interesse em uma estante de livros coloridos. Jonathan ainda estava solto por aí, e eu não ia arriscar. Nem por um segundo.

Aelyn não perdeu tempo. Assim que pisou no chão de vinílico brilhante, soltou minha mão e disparou como um foguete rosa.

“Olha pai! Olha pai! Uma cama de castelo!”

Branca riu, já indo atrás dela com passos cuidadosos, ainda respeitando os poucos dias da cirurgia, mesmo que tentasse disfarçar.

“Aelyn, devagar, meu amor! Não corre assim, pode tropeçar!”

Mas Aelyn era um furacão. Pulou em cima de uma cama em formato de carruagem, deitou de barriga para cima e abriu os braços.

“Eu sou a princesa! Tia Branca, vem ser a rainha!”

Branca se aproximou rindo, as mãos na cintura.

“Rainha precisa de trono, não de carruagem. E princesas não pulam na cama da loja, senão a gente vai ter que pagar por ela.”

Aelyn rolou para o lado, gargalhando alto o suficiente para chamar atenção de uma vendedora que sorriu de longe.

“Mas papai disse que a gente pode escolher TUDO!”

Olhei para ela, fingindo seriedade.

“Eu disse ‘tudo que couber no orçamento e no quarto’. Tem diferença.”

“Então cabe tudo! Meu quarto é gigante!”

Branca e eu trocamos um olhar cúmplice. Ela balançou a cabeça, divertida.

“Você criou um monstrinho, juiz.”

“Eu? Foi você que deu açúcar no café da manhã.”

Aelyn já tinha descido da cama e corria para o corredor de brinquedos. Pegou um unicórnio de pelúcia enorme, quase do tamanho dela, e o ergueu acima da cabeça como se fosse um troféu.

“Esse! Esse aqui! Ele tem asas arco-íris!”

Marcos, o segurança, se aproximou um passo, só para manter o perímetro, mas sorriu de canto quando Aelyn acenou pra ele.

“Tio Marcos, olha o unicórnio voador!”

Ele ergueu o polegar, sério, mas com um brilho nos olhos.

“Perfeito, pequena. Combina com você.”

Branca pegou a mão de Aelyn para acalmá-la um pouco.

“Vamos devagar, tá? Primeiro a cama, depois a cômoda, depois a gente vê os brinquedos.”

Mas Aelyn era impossível de conter. Correu para uma estante cheia de caixas de Lego gigantes, apontando para uma que tinha um castelo medieval.

“Papai! Eu quero construir um castelo de verdade! Com dragão!”

“Dragão não vem na caixa, mas a gente pode comprar um de pelúcia separado.”

“Então dois dragões! Um bom e um mau!”

Branca riu tanto que precisou se apoiar na estante.

“Você tá negociando com ela como se fosse um júri, Cássio.”

“É exatamente isso que eu faço no tribunal. Negocio com gente teimosa.”

Aelyn parou de repente na frente de uma luminária em formato de nuvem que mudava de cor. Ficou hipnotizada, girando o controle.

“Olha tia Branca… ela fica rosa… agora azul… agora roxa!”

Branca se abaixou ao lado dela, ainda rindo.

“É linda. Pode ser a luz de noite?”

Aelyn continuou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

“O que acha? Um irmãozinho ou uma irmãzinha? Eu ajudo a cuidar! Eu ensino a ler, a desenhar unicórnios, tudo! E ele pode ficar no meu quarto, para nunca ter medo do escuro.”

Branca riu, o som saindo trêmulo, mas genuíno. Ajoelhou-se devagar e puxou Aelyn para um abraço apertado.

“Você é maluquinha, sabia?”

“Não tia Branca, eu só quero alguém pra brincar!”, respondeu Aelyn, rindo alto.

Olhei para as duas ali, abraçadas no meio da loja, e senti algo se encaixar dentro de mim. Não era pressa. Não era obrigação. Era possibilidade. Futuro.

Acariciei o cabelo de Branca enquanto ela ainda segurava Aelyn.

“Um dia”, falei baixo, só pra ela ouvir. “Quando você quiser. Quando a gente estiver pronto.”

Ela ergueu o rosto, os olhos em choque.

“No seu tempo, Branca. Eu não me oporia.”

Aelyn bateu palmas.

“Então a gente leva o berço agora? Pra deixar guardado!”

Ri, balançando a cabeça.

“Não agora, pequena. Mas a gente pode escolher um igualzinho. Pra quando chegar a hora.”

Branca se levantou, ainda segurando a mão de Aelyn, e olhou para o berço mais uma vez. Dessa vez, o olhar era diferente, como se algo dentro dela também estivesse mudando.

Pagamos tudo, cama de castelo, cômoda colorida, luminária de nuvem, tapete de coração, unicórnio gigante, dragões de pelúcia. E sim, fiquei tentado a levar o berço, por um minuto inteiro eu pensei se pedia para colocá-lo na lista, apenas para deixar lá. Esperando para o futuro, mas desisti.

Saímos da loja com o carro lotado, Aelyn cantando uma música inventada sobre “irmãozinho que vai gostar de unicórnios”, Branca no banco do passageiro segurando minha mão por cima do câmbio, e os seguranças nos seguindo em outro carro.

No retrovisor, vi o sorriso dela. O sorriso era sereno. Mas carregava histórias que não se apagam.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Coração Emprestado: A babá da filha do Juiz