ADAM
Depois do jantar, sigo com Aiden até o escritório. Todos nós sabíamos que era só questão de tempo até Lilly descobrir o ringue. Ela é assim , tenta apagar os incêndios entre nós com o coração cheio de boas intenções. É exatamente isso que a torna perfeita para nós.
Não suporto fazê-la sentir raiva de mim. Já carrego a culpa por ser, de certo modo, o motivo dela estar longe da própria família. Ainda assim, se pudesse, hoje à noite eu descontaria toda a minha raiva na cara do Austin. Um soco bem dado resolveria metade das minhas frustrações.
— Isso tá estranho… — ouço Aiden resmungar, tirando-me dos meus devaneios. — Não era pra ela ter sumido assim, sem deixar rastro. Ele diz a respeito de mamãe de Lilly.
Ele tem razão. Uma mulher não desaparece do mapa sem ajuda. E eu sou bom no que faço, se ela estivesse sozinha, eu já a teria encontrado. Digo enquanto massageio minhas têmporas.
— Eu vou procurar por algum parente próximo — digo, fechando um dos arquivos na tela. — Mas isso tudo tá me cheirando mal. Ela não sumiria desse jeito sem ter alguém grande por trás ajudando.
— O pai da Lilly nunca teve tanta influência assim… — Aiden retruca, pensativo.
No dia seguinte, tento evitar Aaron. O clima entre nós ainda está tenso por causa da discussão, mas é impossível ignorá-lo quando preciso entregar as informações que descobri. Entro no quarto dele, ainda escuro, e deixo a pasta sobre o criado-mudo. Só pelo estado do quarto, sei que ele realmente dormiu com a Lilly. Engulo o ciúme e me afasto.
Na cozinha, encontro apenas o silêncio. Austin já saiu, Aiden está trancado no escritório e, pela primeira vez em meses, estou sozinho com a minha bebê. Aproveito o momento como se fosse real — como se fôssemos só nós dois, como num romance bobo e clichê.
A caminho do colégio, no carro, falamos sobre o baile. Tento explicar a importância dele pra nossa família, mas a conversa muda de rumo quando ela percebe os nós dos dedos estourados. Poderia mentir, dizer que foi por treino. Mas não quero mais mentiras entre nós. Conto a verdade ou pelo menos parte dela.
Ela sai apressada, decepcionada, e lá se vai mais uma chance de mostrar que posso ser diferente. Mais tarde, recebo mensagens de Aaron dizendo que encontrou uma tia distante da mãe da Lilly… que infelizmente faleceu há menos de um ano. Como alguém pode simplesmente não ter mais ninguém?
Estou trabalhando no computador quando o celular vibra.
— Venha para o hospital agora. Austin e Lilly sofreram um acidente de moto.
A voz de Aiden do outro lado do telefone congela tudo dentro de mim. O mundo para. Meus ossos travam. Minha respiração falha.
— Se a culpa for do Austin, eu juro que mato ele com as minhas próprias mãos.
— Só venha, Adam. Ela precisa de nós.
Saio correndo. Acelero até o limite, mas parece que o caminho se estica cada vez mais. Tudo o que penso é nela. Não posso perdê-la. Não depois de tudo.
Chego ao hospital e encontro Aiden e Aaron na recepção. Ninguém tem notícias. Só sabemos que os dois chegaram desacordados, levados pela ambulância. Um policial se aproxima.
— Quem é responsável por Austin Fox e Lilly Miller?
Levantamos juntos. O policial nos informa que um carro roubado, em alta velocidade, bateu na moto dos dois. O impacto foi tão violento que os lançou longe. O motorista morreu no local. Sorte dele — porque se estivesse vivo, eu o mataria.
Horas depois, o médico vem até nós. Austin fraturou as costelas e a clavícula. Já Lilly… minha pequena tinha deslocado seu ombro, e quebrado duas costelas e um pé.
Sem balé por um bom tempo, aquilo acabaria com ela.
Vou com Aaron ao quarto dela. Ao entrar, meu coração despenca.
Ela está ali, cabisbaixa, com o braço engessado, a perna imobilizada… e mesmo assim, me dá um sorriso fraco.
— Oi, meu bebê… sinto muito.
Seus olhos azuis estão inchados de tanto chorar. Aaron tenta quebrar o gelo.
— E aí, pirralha… tá bem?
Reviro os olhos.
— É óbvio que ela não tá bem, seu idiota. Ela está toda quebrada!
Lilly sorri. Ainda assim, sorri.
— Achei que ia morrer — diz com a voz embargada, e as lágrimas voltam.

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