LILLY
A última lembrança que tenho é de Adam me alimentando no jantar, antes de o sono me vencer por completo. Quando desperto, estou em um lugar desconhecido. Meus olhos percorrem o ambiente e percebo que estou numa cabana — muito bem cuidada, aconchegante até, se eu não estivesse com um braço e uma perna engessados e sem saber como vim parar aqui.
Será que fui sequestrada por algum maluco do hospital?
Tento me mexer, mas a dor e o peso do gesso me impedem de sair da cama. Escuto um barulho vindo do andar de baixo. O coração acelera. Será que devo gritar por socorro ou esperar que meu possível raptor me encontre e decida o que fazer comigo?
— ALGUÉM AÍ? — grito, torcendo para que a resposta venha de um rosto familiar. — POR FAVOR, ME AJUDA!
Ouço passos correndo pelas escadas. Meu coração martela no peito até a porta se abrir. É Adam.
— Bom dia, meu bebê. Dormiu bem? — Ele entra com um sorriso doce e beija minha testa com carinho.
— O que está acontecendo, Adam? Onde a gente está? Como saímos do hospital?
— Você teve alta durante a madrugada. Aproveitei para te trazer pra cá. Essa cabana é minha. Venho sempre quando quero me afastar de tudo.
— Tá, mas por que não voltamos pra casa? Onde estão os outros?
— Eles não vieram. Aqui é só você e eu, pelo menos por enquanto.
— Adam... o que está acontecendo? Isso tá estranho...
Ele se aproxima mais, olhando profundamente nos meus olhos. Há algo em seu olhar que me arrepia. Não é medo, exatamente. É... intensidade demais.
— Nós não vamos voltar agora, Lilly. Aqui, ninguém pode te machucar. Aqui, ninguém vai te tirar de mim.
— Você sabe que não dá pra simplesmente desaparecer assim. A faculdade vai notar, seus irmãos também. Todo mundo vai ficar preocupado...
— Ninguém se importa com você como eu me importo, Lilly. Você não vê? Tudo gira ao seu redor. Um minuto longe e tudo desmorona. Você nunca deveria ter subido naquela moto com o Austin. Era pra ter me esperado, como sempre. Olha só pra você agora...
— Eu sei que você se preocupa, e talvez até mais que os outros. Mas isso aqui não vai impedir que coisas ruins aconteçam. Foi um acidente, Adam. Ninguém teve culpa.
— Posso causar um “acidente” no braço do Austin também...
— Adam! Já falei que não quero mais brigas entre vocês!
Ele não responde. Apenas me pega nos braços com cuidado e me leva até o banheiro. Apesar da vergonha, deixo que me ajude com tudo. Depois descemos para a sala, onde ele me acomoda no sofá e traz uma bandeja com café da manhã.
— Você podia avisar aos seus irmãos onde estamos — digo, com o olhar firme.
Ele para, garfo em mãos, e me encara.
— Não me olha assim, Adam Fox. Vamos ficar aqui até o fim da semana, mas depois voltamos pra casa. Por favor, liga pra eles.
Ele bufa, contrariado, mas concorda. Durante a ligação com Aiden, ouço os gritos do outro lado da linha. Depois disso, Adam se deita ao meu lado no sofá e, por um instante, é como se tudo estivesse em paz. Passamos o dia assistindo série, comendo pipoca. Foi um lado dele que eu nunca tinha visto: carinhoso, atencioso, até engraçado.
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UMA SEMANA DEPOIS
Hoje voltamos para casa. Adam até tentou resistir, mas no fim, cedeu. Durante essa semana, mesmo na minha condição, ele me mostrou um amor incondicional — e, talvez, um pouco desesperado também. Mas não sou ingênua. Sei que, entre todos, Adam é o mais carente de amor. Ele nunca teve isso. Nem dos nossos pais. Acho que é por isso que ele ama de forma tão intensa... e, às vezes, assustadora.


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