— Inês, você já tem quase trinta anos, por que ainda tenta agir como uma garotinha usando rosa? Credo... que infantilidade.
Inês mexeu os pés, achando aqueles chinelos infantis muito bonitos.
Aquilo representava a bondade de alguém para com ela.
Para alguém como ela, que cresceu num orfanato e só sabia estudar, sem traquejo social, era raro receber gentileza de estranhos.
Por isso, aquilo era precioso. Ela não jogaria fora.
Branca nem quis olhar para ela, apressando-a para ir à cozinha fazer o jantar, recomendando:
— Não esqueça de fazer algo leve, com pouco sal.
Geraldo tinha pressão alta.
— Entendi. — Inês foi direto para a cozinha, pegou o celular e pediu comida por aplicativo, adicionando a observação de "leve e pouco sal".
Eles moravam perto do centro, não muito longe da rua gastronômica, então a entrega chegou rápido.
A campainha tocou. Branca foi atender e, ao ver que era entrega de comida, ficou pasma.
Inês caminhou calmamente até a porta do escritório, bateu e gritou como sempre fazia:
— O jantar está pronto.
Só que sem o tom alegre de antes.
Sempre que terminava de cozinhar, ela batia na porta toda feliz e dizia: "Hora de comer!"
A porta do escritório se abria imediatamente.
O marido dizia: "Obrigado pelo esforço, amor."
Desta vez, Abel abriu a porta, mas a frase não veio. Os dois se encararam, notando primeiro a marca do tapa no rosto um do outro.
Silêncio mútuo.
Parecia que ninguém queria ceder.
— Filho, vem logo comer o que a Inês pediu... a comida de entrega! — Branca falava com ironia enquanto punha a mesa.
Abel ouviu e reclamou:
— Por que pediu comida fora? Acabou a comida na geladeira? Eu queria tomar a sopa de peixe que você faz.
— Tem sopa de peixe. — Inês virou as costas e saiu.
Abel fez menção de segurá-la, mas recolheu a mão e a seguiu, insatisfeito.
A comida de entrega na mesa não despertou o apetite de Abel. Ele não tomara café da manhã e ficara sem jantar, estava difícil de aguentar.
— Inês, até quando você vai ficar de birra?
— Eu apenas não cozinhei. — O tom de Inês era indiferente. — O que isso tem a ver com birra? Eu nasci carimbada para cozinhar?
Abel ficou sem resposta.
Ela pegou o garfo e começou a comer sozinha, sugerindo:
— Se não gostam de comida de entrega, vamos contratar uma empregada.
Mariana retrucou:
— Pra que empregada? A casa já não tem... — "você?", ela ia dizer.
— A casa tem uma, é verdade. — Inês a interrompeu, olhando para Geraldo e Branca, que a reprovavam com o olhar. Um sorriso sarcástico apareceu em seus lábios. — Se vocês têm pena do Abel, podem mandar a empregada da casa de vocês para cá.
— Inês! — Abel perdeu a paciência, mas ao ver o rosto levemente inchado dela quando ela se virou, conteve a raiva e suavizou o tom. — Tenha mais educação com meus pais.
Abel respeitava verdadeiramente os pais e mimava a irmã, mas com ela, sua esposa, a gentileza era falsa, assim como o sentimento.


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