A estrutura principal da notificação dividia-se em duas partes.
A primeira alertava Abel que, durante a vigência do casamento com Inês, todos os ativos em seu nome eram classificados como patrimônio comum. Conceder por vontade própria bens orçados em cento e dezoito milhões a uma terceira pessoa, a senhora Julieta — somando veículos luxuosos, propriedades refinadas, joias inestimáveis e demais valores de alto custo —, caracterizava um ato civil sem valor jurídico.
Tanto ele quanto a beneficiária, Sra. Julieta, carregavam a responsabilidade de devolver o valor na íntegra.
A segunda parte era uma intimação formal em nome da cliente. O prazo para o estorno seria de dez dias. Passado o tempo, sem o cumprimento da devolução, o escritório intercederia pela constituinte entrando com uma ação judicial perante a corte. Assim, não só os bens teriam de ser ressarcidos, como as taxas processuais e honorários advocatícios recairiam sobre as suas costas.
Os dedos de Abel tremiam, segurando a notificação. Seus olhos se encontravam tão esbugalhados que estavam doloridos e avermelhados.
Inês realmente deixou o apego conjugal de lado para chegar a este ponto.
Maicon tomou um susto quando pôs os olhos no documento; contudo, ao ler a cifra de cento e dezoito milhões, ponderou que o valor era menor do que esperava.
Em suas contas, deveria ter no mínimo uns cinquenta ou sessenta milhões a mais.
Provavelmente, aquilo era tudo o que Inês conseguira investigar.
Céus, cento e dezoito milhões. Se neste momento pedissem ao Diretor Rocha para levantar míseros oito milhões, ele teria de se desfazer de casas, carros e ações.
Julieta?
Mesmo falida, ela não conseguiria quitar a dívida.
Maicon puxou o ar devagar, pensando que gente paciente, quando chega no limite, costuma ser a mais difícil de enfrentar. Quando eles perdiam a paciência, ninguém suportava a fúria.
Testemunhando o rosto de Diretor Rocha transbordando ira, Maicon tomou uma distância sutil e avisou: — Diretor Rocha, o projeto da Sno Semiconductores está para começar. Se a senhora resolver agir pelos meios legais, os desdobramentos... serão devastadores.
Nem precisava de advertências para que o Diretor Rocha percebesse o impacto desastroso de toda aquela situação.
Maicon também estava angustiado; afinal, ele era assistente do Diretor Rocha. Se seu superior caísse em desgraça, a Tecno Universal não o preservaria. E, caso permanecesse, acabaria marginalizado, num autêntico pesadelo profissional.
Como Abel ignoraria o peso daquilo tudo? Agora, a dor de estômago não era o único problema; sua cabeça latejava intensamente, como se golpes ecoassem em sua nuca.
O clima certamente parecia um "inverno" turbulento.
No entanto, logo conseguiu delinear a situação baseando-se nas informações que tinha: — Diretor Rocha, o documento chegou sem qualquer identificação de conteúdo. Era tão ordinário como os outros e embalado num envelope vazio, dentro de outro, feito uma boneca russa. Usar um esquema desses para entregar uma notificação dessas foi, sem dúvida, uma clara pro...
Provocação.
Ele hesitou antes de concluir a palavra.
Como foi Inês quem ordenou aos advogados que expelissem o aviso, era claro que a ideia teve o seu consentimento.
Abel absorveu a insinuação nas palavras de Maicon. Aquilo transcendia a mera provocação; consistia em um lento sadismo.
Em vez de ingressar com a ação direta, decidiu despachar uma notificação como um aviso teatral.
Com o temperamento frio que Inês carregava, era impossível que orquestrasse uma maquinação tão vil.

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