Percebendo a irritação do Diretor Simões, o motorista se desculpou no mesmo instante.
— Peço perdão, Diretor Simões. Isso não vai se repetir.
— Acho bom. — Rodrigo cravou os olhos nele. — E não invente mais histórias para a Inês. Ela já foi enganada demais.
— E faça o favor de repassar esse aviso para o Noel.
— Sim, senhor, Diretor Simões. — O motorista sentiu um calafrio na espinha. Estava claro que o chefe havia percebido o complô entre ele e Noel para fazer com que a Sra. Jardim saísse de casa entregar o guarda-chuva.
...
Inês deitou-se na cama e apagou as luzes.
Do lado de fora, a paisagem era um tapete branco, cujo clarão refletia fracamente através da janela. O sono não vinha.
Seus pensamentos estavam divididos. Por um lado, martelava em sua mente como descobriria alguma notícia sobre Mike; por outro, a imagem de Rodrigo surgia em sua cabeça de forma repentina e persistente.
Seus dedos seguraram o colar com a chave de latão esculpido que trazia no pescoço, esfregando-o com delicadeza.
Quando recebeu aquele presente, preferiu não admitir a Rodrigo o quanto havia gostado daquele colar em formato de chave.
Mesmo que aquela chave jamais servisse para abrir uma porta de verdade.
A concepção que Inês tinha de "lar" sempre se baseara na existência de uma chave.
Na época da escola primária, ela ouvia seus colegas conversarem sobre isso. Alguns guardavam as chaves na mochila por orientação dos pais; outros as penduravam no pescoço. Havia também os que reclamavam do incômodo de carregá-las, dizendo que preferiam escondê-las debaixo de um vaso de plantas ou em cima da janela, obrigando-os a subir numa cadeira para alcançar.
A chave da sua própria casa servia unicamente para abrir a sua porta. Se ela se perdesse, era preciso ir ao chaveiro e esperar em pé para fazer uma cópia. Caso todas fossem perdidas, a única solução era trocar a fechadura, e com uma nova fechadura, viria também uma nova chave, exclusiva.
Em meio a essas conversas casuais dos colegas, ela começou a montar, como um quebra-cabeça, a imagem do que significava ter um lar.
Mais tarde, no ensino médio e na faculdade, ela pendurava no pescoço a chave de seus dormitórios e, ao se formar, fazia questão de guardá-las como relíquias.
No entanto, com os avanços tecnológicos, a maioria das portas hoje usava fechaduras digitais, com biometria ou senhas numéricas. Quando se casou com Abel, carregou uma sutil decepção no peito: logo quando finalmente teve uma casa para chamar de sua, não havia uma chave física. Apenas uma sequência de números.
Imersa nesses pensamentos, embalada pela luminosidade da neve lá fora, Inês adormeceu gradualmente.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim