Como ainda era cedo, o motorista levou Julieta Lima primeiro à Mansão Serra Sul. Por já ter sido levada para lá antes por Mariana Rocha, com direito a registro na portaria, e alegando que visitaria a casa número onze da Família Rocha, ela conseguiu entrar sem problemas.
No entanto, no instante em que ela pisou na Mansão Serra Sul, Rodrigo Simões recebeu a notícia.
Rodrigo telefonou para a Sra. Silveira, pedindo que ficasse atenta aos movimentos de Julieta.
Por coincidência, Alice Simões havia acordado bem cedo. Enquanto tomava o café da manhã, ouviu um barulho lá fora e, ao verificar, deparou-se com Julieta.
Didi e Mumu, cada um de um lado, cravavam os dentes nas botas de cano alto de Julieta. Pálida de pavor, ela gritava a plenos pulmões:
— Socorro! Socorro! Tirem esses cachorros daqui, agora! Tirem!
O motorista que a trouxera tentou pegar um pedaço de pau para bater nos animais, mas foi barrado de forma intimidadora pelos seguranças, sendo forçado a recuar para bem longe.
— De onde surgiu essa galinha? O sol já raiou faz tempo e só agora começou a cacarejar. — Alice caminhou sobre a neve espessa e comentou: — Que galinha mais incompetente.
Julieta sabia perfeitamente que a provocação era para ela, mas não tinha como se importar com isso no momento. Sentia que os dentes dos dois cães já estavam perfurando o couro de suas botas e quase encostando em seus tornozelos!
Se eles mordessem de verdade, seria o seu fim!
— Sra. Simões, por favor, chame os cachorros! Eu vim hoje procurar a Inês Jardim para falar sobre um assunto muito importante.
— Não tem problema. — Alice deu de ombros, com uma expressão de total indiferença. — Dá para falar assim mesmo. Afinal, eles ainda nem tiraram sangue, não é?
Com o rosto lívido, Julieta elevou o tom de voz:
— Sra. Simões! Ninguém trata uma visita dessa maneira!
— Visita? Que tipo de visita você acha que é? — Alice aprendera desde cedo com os pais a regra de sobrevivência social de "retribuir gentileza com gentileza, e maldade com maldade". Ela podia ser um doce com quem gostava, mas não cedia um milímetro para quem detestava.
— Uma intrusa sorrateira que invade uma propriedade privada e é pega pelos nossos cachorros ainda tem a audácia de se chamar de visita.
A Sra. Silveira jamais imaginou que o termo "intrusa sorrateira" pudesse ser usado com tanta precisão e acenou com a cabeça, aprovando.
Vendo que Alice continuava impassível, Julieta recorreu à sua cartada final:
— Sra. Simões, se você continuar me provocando e deixar que os cachorros me mordam, eu posso até aguentar os ferimentos, mas se algo acontecer com o bebê que estou esperando, vamos ver de quem será a responsabilidade.
Inês já havia enviado uma notificação extrajudicial com a intenção de levar o caso ao tribunal e já estava divorciada de Abel Rocha. Esconder a gravidez das pessoas ligadas a Inês não fazia mais o menor sentido.
Contudo, para evitar que o motorista do avô escutasse, ela baixou um pouco o tom de voz.
Alice arregalou os olhos, chocada:
— Você tem coração? É capaz de usar até o filho na própria barriga?
— Senhorita, a senhora acabou de chamá-la de intrusa sorrateira, e agora a trata como se fosse uma pessoa decente. Senhorita, não seja boa demais com quem não merece. — A Sra. Silveira interferiu.
Alice bateu na própria testa:
— Tem toda a razão.
Com as duas fazendo coro contra ela, Julieta ficou tão irritada que mal conseguia respirar, seu peito subindo e descendo acelerado.

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