Douglas puxou o ar e, rangendo os dentes, disparou:
— Não consigo fazer isso sozinho. Você sabe muito bem que nosso pai já me restringiu o acesso aos recursos da Família Siqueira há muito tempo, e a culpa é toda sua!
— Nunca pensei que chegaria a tanto por causa da Julieta Lima. Foi uma escolha sua. — justificou Lucinda Siqueira.
— Pode até ter sido minha escolha, mas eu te pergunto: eu já te ferrei alguma vez nesses anos todos? Para você me apunhalar pelas costas desse jeito...
— Sem tempo para conversa fiada. — interrompeu Lucinda. — Vai pedir a ajuda do nosso pai? Ótimo. Por mais que ele despreze a mamãe, jamais ignoraria uma vida inocente.
Antes de encerrar a chamada, ela deixou um último lembrete:
— Sou uma procurada desesperada. Se não posso viver, vou levar comigo quem estiver perto. Pensem bem, você e ele.
Ao desligar o aparelho, foi impossível ignorar o olhar inflamado da mãe. Lucinda virou o rosto para encará-la.
Os olhos da mulher estavam vermelhos e encharcados de lágrimas, porém transbordavam ferocidade.
Lucinda desviou a atenção. Evitou encará-la enquanto aguardava em silêncio o pai e o irmão.
O tempo todo, o peso do escrutínio de Soraia Siqueira causava-lhe um tremendo desconforto físico.
Incapaz de suportar, Lucinda falou:
— Não me olhe assim. Já falei que você deveria culpar a Inês Jardim. Acho que você estava certa: a Inês é como um cobrador de promessas não cumpridas, um carma. Mas o que as dívidas de vocês têm a ver comigo? Fui o próprio Robson que me trouxe para cá, justamente para salvá-los de um abismo. Tecnicamente, prestei um favor gigantesco. Então, por que vocês sempre me mantiveram sob desconfiança?
Contudo, sempre havia alguém determinado a arrastá-la de volta à dor.
Um zumbido ensurdecedor tomou conta da cabeça da mulher, latejando em seu crânio a ponto de explodir. As gotas que despencavam de seus olhos não pareciam mais água salgada; eram como sangue.
— Fui pescando histórias ao longo dos anos. Disseram que você me tratou como escória no início. Era medo? Você me olhava e enxergava a Inês? Ou o fato de eu não ter o seu sangue fazia você querer se livrar de mim o mais rápido possível?
Soraia era incapaz de emitir qualquer resposta.
— Esquece. Você nunca conseguiu enxergar a si mesma. Obviamente, não saberia me dizer o motivo real. Aposto que nem sequer entende o porquê de ter sido tão amorosa comigo depois de se recuperar do surto. No fundo, você só me usava para preencher o vazio deixado pela Inês. — concluiu Lucinda com um suspiro cínico.
— O famoso "amor por substituição"? — ponderou a garota, balançando a cabeça afirmativamente. — É... faz sentido. É quase uma epidemia psicológica. Em um romance, o parceiro tenta pagar as dívidas afetivas não resolvidas com o "ex", sendo um anjo com a pessoa atual. Nas amizades, se encontram alguém com a mesma energia daquele amigo que magoaram, tornam-se incrivelmente prestativos, tentando consertar o passado pelo presente. E na família, a lógica é ainda pior. Se acham uma criança parecida com aquela que se foi, depositam ali todo o excesso de proteção, o peso das expectativas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Pra que um livro tão longo? É muito cansativo. Estou no capítulo 244 só agora ela foi revelada, para mim o livro só teria mais o envolvimento dela com o Rodrigo e acabaria ai, mas não, tem que passar de mil capítulos....
Parece até que mudou o autor do livro. Uma linguagem rebuscada, parecendo até português de Portugal....
A esposa do Robson era Nara Lessa, de repente mudou para Soraia Siqueira....
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...