— Me fala o que você fez comigo!!
— Anda... me conta...
— Eu vou acabar com você!
— Vou te denunciar...
— Chamem a polícia! A polícia!!
Winter retirou a agulha com a destreza de um bisturi frio e ocultou a seringa no abismo da bolsa.
Despiu as luvas num ritual vagaroso e calmo de quem finaliza um procedimento vulgar.
— Você acredita mesmo que a polícia ainda daria crédito ao seu esgoto oral? — respondeu ela, no tom mais monótono que conseguiu criar.
— Além disso, qual é a prova de que sou responsável pela sua agonia?
— Aquela câmera inútil grudada na parede?
— Você é um rato velho, Simão. Surpreende-me a sua ingenuidade imbecil.
— Se atravessei a vigilância de forma invisível, acha mesmo que aquela lente registrou algo além de fantasmas?
Só nesse instante empoeirado de lucidez, a monstruosidade da influência de Winter explodiu na percepção do desgraçado.
Como isso havia começado?
Como uma menina tola e facilmente manipulável...
Evoluíra para aquela imperatriz maquiavélica, manipulando peças num tabuleiro invisível onde a própria vida de Simão resumia-se a um mero peão encurralado?
Simão enxergou o gatilho maldito de sua perdição: a descoberta do seu quarto das sombras.
E por acaso aquele quarto havia revelado a si próprio?
Sem dúvida, os fios invisíveis apontavam para os dedos imaculados de Winter!
Uma epifania horrenda apoderou-se dele: tudo, do incêndio de seu reino oculto à perda de seu corpo e da sua dignidade... tudo recaía sobre a astúcia predatória que exalava de seus poros!
— Você...
— Foi você?
— Tudo foi orquestrado pelas suas mãos malditas?!
— Winter, você já sabia que minha paternidade era uma farsa, que os testes haviam sido corrompidos, e que havia ligações com a Família Castro!
— O que mais as trevas te sussurraram? Quantos outros ardis engatilhou para me triturar?!
— Minhas mãos... A perda da minha mão direita foi seu prêmio oculto?!
Winter sequer contestou a tempestade colérica.
Limitou-se a cruzar os braços, encarando os destroços do adversário do pé da cama, com indiferença polar.
— Teria sido uma trama minha ou você apenas afundou na lama do próprio esgoto?
— Simão, você só engoliu o prato que preparou em vida.
— A roda sempre gira, lembre-se disso. A conta do diabo acaba inevitavelmente sobre a mesa.
— Sem suas imundas profanações de tantas vidas preciosas, você estaria em paz com suas entranhas de ouro hoje, em vez dessa prisão putrefata da agonia eterna.
— Deguste com calma o presente exótico injetado em seu pescoço. O ensaio finalmente terminou. O espetáculo diabólico irá começar agora.
De modo teatral, despencou o encosto do corpo esguio na poltrona do quarto asseado de paredes claras.
Entregou as pernas cruzadas à espera complacente dos efeitos pirotécnicos em seu adorável manequim moribundo.
Uma prostração venenosa sufocou a força motora de Simão. Doenças sem contorno principiaram em todos os nervos invisíveis de seu cerne maldito.
O pavor psicológico nutria-se avidamente de toda a sintomatologia diabólica que corroía a armadura de sua pele necrosada.
O enigma atormentava a couraça de seus horrores: Qual seria o prêmio derradeiro que ela ansiava levar ao adentrar ali hoje?
Que escambo maldito compraria a indulgência plena das presas dela ao seu pescoço enforcado?
Estaria ali somente para sugar a derradeira lamparina de sopro de seu peito decaído na miséria mortuária?
Ou a agulhada continha um elixir diabólico de perpetuação indefinível de torturas imorais para a sua imortalidade terrena agonizante?

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